MARY O AND THE PINK FLAMINGOS

Surf-punk psicodélico do jeito que diabo gosta

PAQUETÁ

O fino do surf music underground

9.9.18

Facada - Quebrante (2018)




Voltando pra esse espaço que serve de fuga desse mundo sombrio, espero que essa maldita vida corrida me dê um pouco de trégua pra escrever mais por aqui. Entre um projeto bem feito e outro saindo do papel depois de uns 4 anos, voltei empolgado pra colocar alguns rascunhos em dia. 
Por conta dos últimos acontecimentos dentro do cenário podre da nossa política, nada mais correto do que falar sobre o mais recente disco do Facada. A banda, que é uma das favoritas por aqui, soltou recentemente o maravilhoso Quebrante, sucessor do clássico contemporâneo do submundo da música extrema conhecido pela graça de Nadir. Nesse novo trampo, esses bandidos do subterrâneo cearense seguem a mesma linha agressiva do disco anterior, grind extremamente agressivo e boas mesclas de crust. Com uma rotina por vezes entediante durante a semana, a minha relação mais próxima com esse disco aconteceu muito no trajeto matutino para o meu trabalho. Entre um congestionamento fadigante, uma tia que sempre estava dormindo na mesma calçada em que passo todos os dias e um nóia bebendo pinga às 7 da manhã no sinaleiro, as 23 faixas de Quebrante martelavam aquele contraste diário em que eu só queria fugir daquelas cenas que eram os tapas diários que eu levava (e ainda levo) na face. Foram quase dois meses de audição intensa, entendendo a cada minuto escutado que esse mundo é uma completa farsa e que as pessoas são sujas , egoístas e podres (claro, tem aquelas que ainda compensam). As letras, além da sonoridade, sempre foram o que mais me fizeram gostar da banda, e nesse registro não é diferente, os cabras não fazem cerimônia pra falar do buraco sem fundo que é essa nossa atmosfera que mistura sociedade e poder. 
Engraçado ou não, triste ou não, nessa semana que passou, um político mais que fascista levou uma facada no bucho, talvez por discursar e propagar tanto ódio e preconceito, o bumerangue voltou contra ele de forma quase letal. Logo me veio em mente o Facada, foi coisa imediatista da mente mesmo, e não demorou muito pra galera fazer as suas analogias entre a banda e o acontecido. E muito do que é dito nesse disco, representa toda essa patifaria que circula entre internet, ruas, trabalho, faculdade e demais ambientes coletivos. Alguém mais desavisado deparando com essas músicas pode pensar que os caras são meio que visionários, mas nem é, é questão de relatar o óbvio que está bem em nossa frente.
James & Cia colocam cada vez mais a banda em um patamar elevado dentro do underground, de maneira simples, sincera e sem muito oba oba. Quem acompanha a banda de perto ou de longe sabe do que estou falando, que o Facada já é uma das lendas da música extrema desse país, o que eu lamento de verdade é de nunca ter visto uma apresentação desses loucos, sempre aconteceu algum evento ruim que zicou a oportunidade de vê-los em ação. Mas algum dia pago essa dívida pessoal, no mais só tenho a agradecer a banda pela existência e pelo barulho que fazem, agradecer a Black Hole e a Läjä por lançarem de maneira brilhante esse discásso. Vida longa sempre ao Facada!

17.7.18

Velho de Câncer - O Fim (2018)




                               


Depois de uma pequena colônia de férias num retiro espiritual pra desintoxicar o meu lindo corpinho, retorno para este espaço pra fazer uma saudação em forma de texto tosco para uma das bandas mais incríveis que já ouvi nesse território subterrâneo nacional. A Velho de Câncer, que depois virou Velho, e que agora voltou a ser conhecida pela graça do primeiro nome, retornou as suas atividades, para a plena alegria de muitas gentes, inclusive a minha.

Coincidência ou não, quando conheci a banda, estava passando por um momento transitório em minha vida, e naquele momento as letras, melodias e a força sentimental angustiante do Zé Ulisses fez um sentido enorme pra mim. Pulando pra esse 2018 meio louco, passo por uma situação parecida, de readaptação da rotina e dos objetivos de um rumo sem certezas. E com uma grata surpresa, semana passada caiu de bandeja em meu colo o novo registro da banda. Bom, tratei logo de baixar nas plataformas de streaming e ouvir de cabo-a-rabo, deixando no modo repeat, enquanto eu fazia os ajustes quase infinitos dos mapas dos municípios de meu Estado, em meu famigerado trabalho.

A intensidade soou como antes e fez minha memória rebuscar os momentos da época em que ouvia quase que diariamente o disquinho da banda. Indo pra faculdade, saindo do estágio, na casa dos meus amigos no atheneu, dentro do carro indo pra algum rolê no Martim ou no Capim, e por fim, no último volume  trancafiado em meu quarto. Não tinha blog nessa época, não tinha muitos compromissos, muito menos cobranças de uma vida padrão. Os amores eram outros, mais vagabundos e mais livres. Uma época realmente muito proveitosa e que me preparou muito pra poder chegar bem até aqui. Nostalgia é isso, aflora com algo bem marcante.

Voltando nesse novo disco, uma demo com nove músicas que de tão boa passa rápido e que deixa aquele suspiro gratificante na alma (bom, foi assim comigo). Não falo aqui de ser a melhor gravação ou o melhor timbre, falo das sensações intensas passadas através de letras e melodias que falam das angústias e da falta de encaixe num mundo cada vez mais cruel com os sensíveis. Ouvindo cada faixa desse disco pensei em meus amigos que estão ao meu lado, daqueles que estão perdidos por alguma razão, pensei em minha família, dos seus problemas diários, pensei em meus amores e desamores que surgem a cada dia, pensei nas pessoas legais que encontrei e que me conectei de alguma maneira nesses últimos meses. Sou muito emotivo e talvez essa seja a fase de minha vida em que ando colocando todas as minhas vontades e impressões pra fora, sem hesitar em me entregar as situações, me fodendo e me divertindo com isso, e a demo "O Fim" chegou na melhor hora de um quebra cabeça que aos poucos vai terminando de se encaixar. 

Se em 2008 quando meu irmão me apresentou a banda o impacto foi devastador, dez anos depois a pancada na moral foi a mesma. Não vou destacar faixas, deixo pra vocês definirem isso de maneira bastante pessoal, o que eu vou fazer é agradecer a trinca Zé Ulisses, Jonas e Lucas por definirem em pouco mais de trinta minutos os parafusos espanados que representam o norte de vidas que estão no tabuleiro desse sistema que judia cada vez mais. Isso aqui é uma sobrevida pra quem anda cansado e  vê pouca identificação ao redor, que vale muito colocar todos os demônios pra fora como um ato de revolução interna. 

Do ônibus lotado à tia que dorme na calçada nesse frio diurno de 15 graus em Goiânia, o cotidiano é cruel e temos que buscar sentido em outras situações pra não surtar nessa frequência em que estamos. Aqui fica o meu muito obrigado ao Velho de Câncer, ao punk, as amizades verdadeiras e pra essa porra toda que ainda faz um sentido do caralho em minha vida. Valeu, é isso.



18.5.18

delírios e surpresas de um sábado ternura







O meu sábado tinha começado como toda a semana do Bananada, de ressaca e já planejando no whatsapp as ações de marketing pessoal do dia. O itinerário apontava pra um show na porta da Hocus Pocus e apresentações de Rincon Sapiência e Pablo Vittar. Tomei um banho, vi o doc Gimme Danger que mostra a história dos Stooges, descansei mais um bocado e fui em rumo ao centro da cidade. Chegando lá fui informado que o samba-esquenta-noise seria num bar que localiza-se num beco meio treta. Chegando lá, os infames de meus amigos me informaram que já iriam pro local da apresentação, fazendo este aqui gastar um pouco mais da sola do pisante. Bom, fui direto pra porta da Hocus Pocus e chegando lá notei que nada estava montado e que um certo atraso ocorreria. Como eu não estava com pressa, esperei pelas imediações consumido algumas ampolas de cerveja. Aos poucos os equipamentos chegavam e o público aumentava de acordo com o avançar das horas. Conversas e mais conversas, ganhei um vinil de Frankito Lopes (o índio apaixonado) das mãos de meu querido irmão, fiquei feliz pelo bom agrado e aquilo foi uma espécie de abrem os caminhos para o que me esperava naquela tarde/noite/madrugada.

O Frieza (ou Friêra para os íntimos) estava já preparado pra começar o ritual inverso da música sem padrões. Posso dizer que a apresentação foi intensa e densa como as outras que já tinha presenciado, com carros, ônibus, motocas e pedestres passando na porta do esquema, em que praticamente todos reparavam com olhares espantosos, observando aquela ruma de gente podre, feia e vestida de preto. Ao final do concerto, parte do público demonstrava claramente a sua satisfação nos olhares e sorrisos, juntamente com a presença ilustre do molecote Psica, figurinha clássica dos rolês da Hocus Pocus. Outra coisa legal que acontece nas apresentações do Frieza é a encenação teatral do Júlio (batera) ao final dos shows, em que o cabra simula uma vertigem, um extremo cansaço e ameaças de desmaio por conta da extrema intensidade do bagulho, quem já viu e não saca do esquema-projac do raparigo tenta até ligar pro Samu ou Bombeiros. Enfim, mais uma apresentação cabulosa do trio, que cada vez mais fixa a cruz invertida na cena do metal extremo deste país.

Depois disso era a vez do Deaf Kids mostrar o seu set noise-seduction. A noite chegava e o clima ficava melhor, na medida em que cada ampola secava em questão de minutos. Com uma apresentação cheia de efeitos, reverbs, fritações e descompasso, faltou só uma feasta de doce pra psicodelia ficar completa e derretida naquela noite boa de sábado.  Ao fim da viagem anti-sonora, ganhei algumas cervejas que estavam alojadas num sacão preto de lixo, fui abordado por uma dupla de joviais que que vieram agradecer a existência do blog e pela destruição que meus escritos fizeram em suas vidas. Agradeci, peguei o contatos dos cabras e depois fomos pro segundo tempo do samba-esquenta-noise, dessa vez la no Bar da Cida. De lá fui direto pro Bananada e foi aí que as surpresas surgiram de todas as formas.

Encontrando muita gente que não via por anos, dei uma passada no stand da Farm pra cumprimentar amigas e ver os looks que estavam bombando nessa estação. Gostei de um jaco, mas não do preço. Carreguei a pulseirinha da alegria e foi iniciada a farra dos 3 chopps por 20 golpes. Naquele dia em específico estava rolando chopp IPA nessa promo, talvez por conta da grande desorganização que aconteceu na sexta. Essa foi uma das surpresas que tive naquela noite fria e movimentada. Com muita expectativa pra ver o Rincon Sapiência e nenhuma pra sacar a Pablo Vittar, fiquei completamente extasiado com o show do Manicongo e pra minha grata surpresa, a Pablo fez uma apresentação impecável que colocou este aqui que escreve pra dançar muito. Bom, as outras supresas da noite ficam na bolinha de meia, pois assim que é. Voltei pra casa e no outro dia saí com mamãe pra comemorar o dia das mães, coisa que eu não fazia por anos. Vou reclamar de quê, tenho só que agradecer aos envolvidos, as amizades sinceras e que esse rolê quase infinito teve muitas histórias e o que resta agora é só a saudade disso tudo. Ganhei uma gripe nisso aí também, pois nada é perfeito nessa vida. Valeu mundão!


Obs.: essse texto foi escrito ao som do disco New Values do pai de todos, Iggy Pop

10.5.18

Uma mandinga pra quarta-feira




Pra quem começou a semana pegando o double-magic da performance do Lee Ranaldo (Sonic Youth carai), a quarta sem responsabilidade prometia ser um tanto quanto alucinante. Dentro da vasta programação do Bananada, a Mandinga Records tava com um showcase na  Toca o Coletivo bem interessante, que juntava três bandas que ajudam a compor parte da nata da música torta sem holofote deste país.

Antes, fiz um corre frenético pra chegar em casa pra cortar o bêlo, tomar um bom banho pra tirar o sebo acumulado do dia e só assim poder partir pro destino já traçado. Antes passei no Fernandêra (distro bate-ponto do meu clã bandido) e peguei um cartucho de antarctica pra desatar o nó e inaugurar o ritual daquela noite fresca. Vento batendo na cara, espera curta no ponto de ônibus, condução vazia, boas histórias, meletinha sentado no banco da última fileira de forma estratégica e desci na rota planejada. Passei no mercado, desmanchei dois quibes em forma de disco com a ajuda de uma lata de soda limonada e depois do bucho cheio, descolei com meus companheiros uma caroninha curta com o Israel (sim, é o mesmo cabra que você deve tá questionando) até o local do evento. Chegando na porta, percebi a pouca movimentação e alguns rostos conhecidos que estavam na parte interna do local. Ajudei meu amigo a matar umas latas antes de entrar no recinto. 

Devidamente alojado na parte interna do estabelecimento, identifiquei rapidamente o local de venda de bebidas e os banheiros, locais estratégicos e que perambulo com certa frequência. Com um som ambiente que variava entre algum garage rock e Ramones, começava os preparativos para o início das apresentações. Quem ficou com a responsa de abrir os trabalhos foi a local e querida Bang Bang Babies, banda daqui que tenho um bom apego. E a bandidagem não decepcionou com o seu set mais que feroz, deixando este que aqui relata com o corpinho esquentado para as horas seguintes. A Bang Bang é uma banda que funciona muito bem em locais mais apertados, e lá na salinha do local foi o encaixe perfeito. Com algumas dezenas de pessoas assistindo a bela performance de Pedrim e seus parças, saí pra tomar um ar e gostei bastante da intensidade que os cabras passaram, algo bem sincero e real.

Sentado num toco e papeando sobre a vida e as possibilidades incertas de um futuro podre, notei que a presença de gentes não aumentaria de maneira considerável, então fui pegar mais um cartucho, dessa vez de budweiser, namorei o merchan disponível e fui novamente pra salinha pra sacar o Colt Cobra, bandinha lá de Vila Velha. O esquema começou alucinante com uma pegada meio tribal, que no desenrolar da apresentação mostrou uma mistura nervosa de surf garageiro com blues, lembando Sonics, Gories, Stooges e coisas do tipo. Com um certo grau já elevado na cabeça, curti muito o som, meio que deixou meu corpo hipnotizante, dançando até quando não queria. 

Com uma movimentaçãozinha esquema-noize quase frenética nos banheiros, tirei um tempinho pra cagar e recuperar meu estômago. O ruim de você obrar em lugar com gentes, é a falta de concentração por conta das conversas e pisadas nos arredores do toalete. Mas okay, matei o bicho e o azar foi de quem entrou logo depois. Depois de um certo tempo era a vez da Light Strucks, banda de surf music instrumental de Uberlândia. Essa era a minha maior expectativa da noite, pois ouvi bastante o vinil deles por alguns meses e sabia que o lance era muito foda. Então quando começou, tratei de virar um cartucho numa golada só pra bater a onda forte, e bateu. E a apresentação foi uma das mais loucas que vi nesses tempos, juntamente com o show do The Cavemen. Ali naquela salinha aconchegante até deus dançou com o surfzão psicodélico que deixou o pai aqui alucicrazy e e desarmado na guarda. Banda mais que cabulosa que compensou o esforço do itinerário. 

Pra finalizar, só digo o que o Julio (batera do Bang Bang Babies) falou em alguma ocasião, as melhores coisas acontecem nesse nosso subterrâneo sonoro, quase sempre pra pouca gente e sempre vai ser a melhor opção, Nunca me arrependi dessa verdade que participo e que esta dentro do dito underground, Meu muito obrigado aos envolvidos e as envolvidas. 

30.4.18

Desalmado - Save Us From Ourselves (2018)



Retornando depois de dias movimentados e intensos pra falar do que mais gosto: som pesado e bem feito. Desta vez chego com o mais recente trabalho da Desalmado, quarteto paulista que já tem uma boa caminhada dentro do nosso underground e que neste ano apresentou para o submundo da música extrema  o excelente Save Us From Ourselves. 
O disco, no quesito sonoridade, segue a linha deathgrind que colocou a banda no game da dita cena, com influências nítidas do crust, hardcore e nuances de som tribal. Cantarolado todo em inglês, a banda dichava no decorrer das noves músicas, influências de Napalm Death (fase metal), Nasum, Ratos de Porão, Dishcarge  e mais coisas semelhantes do tipo. De todos os trabalhos que a banda já lançou e que tive a oportunidade de ouvir, considero esse o mais coeso e encorpado, talvez a experiência de estrada (desde 2004 na ativa) possa explicar o primor que começa pela capa, encarte, letras e termina nas excelentes composições do quarteto. 
Com uma paulada atrás da outra em pouco mais de vinte e cinco minutos, posso destacar algumas cantigas que roubaram a minha atenção por mais vezes. Foi o caso da música que leva o título do disco, Save Us from Ourselves, que tem uma pegada tribal maravilhosa em sua introdução, que remete as influências percussivas dos mestres mineiros conhecidos pela graça de Sepultura. Outra música cabulosa que destaco recebe o título de Blessed My Money, grind moderno com boas pegadas de crust/hardcore que pode ser rotulada como uma catarse sonora, dada a tamanha intensidade que o som transmite. Bridges to a New Dawn possui um vídeo clipe incrível (veja no final do post) e mostra um pouco de toda a miscelânea extrema inserida na banda. Meu outro destaque vai para Binary Collapse, grind com pitadelas de d-beat (bateria cavalo-manco) que soa bem contemporâneo sem deixar a velha escola de lado.
Outro destaque fica para as composições, pois se tem algo que gosto de valorizar dentro dessa cena é a mensagem que a banda passa. Resistência em tempos obscuros é mais que necessário e a Desalmado não foge da reta, apresentando letras libertárias com forte cunho social e desgarrado de dogmas. Nem preciso falar que coisas do tipo costumo valorizar mais do que o normal e faço questão de destacar esse posicionamento da banda perante as situações de nosso cotidiano. Nota máxima, sem tirar um décimo.
A maravilha de capa e o poster interno é de autoria do brilhante Jeca Paul (cösmico zine), que deixou o trampo mais fino ainda. Lançamento da master Black Hole Productions, sempre impecável em seu cast e que sempre dá aquela sobrevida a cena extrema deste país. O lançamento ainda teve o apoio da Helena Discos, vale ressaltar.
A nítida transição do grind e o death talvez seja um dos diferenciais que fazem da Desalmado um dos grandes destaques da cena extrema nacional, e este lançamento só reforça o nome da banda entre os principais destaques do grindcore da atualidade. Quem conhece sabe do que estou falando e pra quem não conhece, ainda está em tempo de corrigir esta falha grave. Baita banda e disco incrível!!!



Obs.: resenha morreu o caralho.




10.4.18

Cream Cracker, Corpse Paint e Enxofre





Na derradeira sexta, estava eu arquitetando as coordenadas da diversão daquela noite quando chegou a info de que um belo trio ternura estabelecidos em Brasília estariam por essas bandas de cá. Fiquei sabendo que os mesmos estavam sedentos por um bom rolê na cidade, então começou surgir as possibilidades de lugares pro chamego das próximas horas. Entre as opções jogadas na roda de conversa do whats, brotou o interessante evento “Satã, apareça!”. Até então confesso que não queria fazer algo que envolvesse shows, mas sim bares ou boates. Mas acabou que me convenceram de ir pro lugar, no caso era A Toca Coletivo, e já fui me preparando para as aventuras daquela noite.

Com temática black metal, o esquema trazia pela primeira vez por essas bandas de cá a carioca Velho, além de outras atrações que citarei ao longo do escrito. Antes disso, quando a sirene tocou e a liberdade cantou, parti em rumo ao Jarinão, no trajeto que estava bastante ensolarado, fui ouvindo um bom Jazzmatazz Volume 1. Parei no peg-pag pra comprar uma latinha, soltei 3 dinheiros numa ampolinha semi-gelada. Foi o prazo de chegar na boca da praça cívica pra bebida ficar em temperatura ambiente, o que me fez jogar o restante que sobrou no alumínio numa lixeira que tinha dois pombos mortos. Castigado pelo solzão e levemente aliviado pela cerveja, cheguei no Jarina e a clássica session de discos estava pra iniciar. Entre umRatos de Porão ao vivo (aê, sofrê), Probot (projeto cabuloso do Dave Grohl), The Clash e mais alguma coisa que agora falhou na memória, descemos no Jesus (bar localizado embaixo do prédio) e adquirimos alguns litrões, além de um salgadinho de pele de porco que estava bem chegado no tempero marinho.

Passadas algumas horas, e com a clara intenção de economizar dinheiro com Uber, partimos em trio num coletivo do péssimo transporte público desta cidade. Durante o trajeto entraram algumas mulheres com sotaque nortista e agitaram um pouco o ambiente vazio do ônibus. Em determinada hora do itinerário, uma delas retirou uma embalagem aberta de Cream Cracker e foi oferecendo para as demais, e eu que estava no meio do bolo fui questionado na aceitação de uma unidade da bolacha. Com um pouco de vergonha e com um pouco de surpresa recusei educadamente a oferta e no decorrer do trajeto até o destino final, com as conversas mais idiotas possíveis, essas mulheres não conseguiam segurar o riso e caíam na gaitada. Descemos nas imediações do local do crime e antes disso passamos no mercado pra comprar umas cervejas. Passando no caixa pra acertar o que seria consumido, notamos um casal passando uma compra um tanto peculiar, no caso era uma garrafa de Domus juntamente com um refrigerante Goianinho Zero. Depois disso fomos pro local da festa invertida e percebi que já tinha uma boa movimentação de gentes. Adentrando no recinto, topei com uma galera que eu não via já tinha um certo tempo, perambulei pelo espaço do lugar, que é bem amplo e confortável de certa forma. Comprei algumas fichas de cerveja, pisei no gramado, já que não era proibido, sentei na muretinha e comecei a observar o pessoal. Desde as épocas antigas dos rolês do DCE que eu não via tanta galera que curte blackmetal reunida. Conversas aqui, cumprimentos ali, roustos conhecidos e desconhecidos que depois tornaram conhecidos (rizos) e chegou a notícia de que já tinha rolado a apresentação do Heia. Queria ter visto, mas paciência.

Aproveitei o intervalinho entre as bandas pra namorar os materiais que estavam expostos, confesso que quase fiz loucura por conta do consumismo, tinha muita coisa legal, mas segurei a onda e voltei pro meu lugar de origem. Passado isso, adentrei na salinha pra apreciar a próxima banda, que no caso era aOrgiy of Flies, death metal de Formosa. Tudo muito oldschool, a banda representa e propaga o que há de melhor da primeira fase do estilo, misturando também a fase inicial do black metal em sua sonoridade. Apresentação muito técnica e pesada, era a primeira vez da banda aqui em Goiânia. Confesso que não conhecia o som e fiquei impressionado com a apresentação, com o vocal-berrante que ecoava pelas paredes da salinha e observei o público compenetrado no som do começo ao fim. Depois dessa avalanche voltei pro espaço externo, conversando com gentes de todos os tipos, cores e visuais. Em determinando momento em que eu estava num bolinho de resenha, rolou uma situação das mais inusitadas e um tanto hilária bem no momento em que um amigo foi pedir o isqueiro emprestado paraumas meninas que estavam do nosso lado. O esquema já virou piada interna dos nossos rolês. Passado isso, era a vez do Sociofobiasubir ao palco pra destilar o seu metalpunx mais que tradicional, já tinha algum tempo que eu não via a banda em ação e foi massa ver a força e a energia dos caras depois de tanto tempo tempo de banda, mais de 15 anos na ativa. As apresentações são sempre clássicas e com um ar de nostalgia, algo parecido que presencio quando vejo oDesastre tocando por aí.

Depois disso fui pra portaria ajudar no controle de entrada e saída de gentes, sempre um probleminha chato que rola nos eventos undergrounds, mas sempre consegue-se controlar e levar tudo na moral.Faltavam as duas principais bandas da noite pro baile ao avesso terminar, e a penúltima deu a machadada final e iniciou-se o rito na salinha. Adentrei e senti um clima pesado, era a Lápide vociferando o seu black metal, tocado mais arrastado e muito performático por parte do vocalista. Rostos pintados (Corpse Paint) que davam um efeito visual mais macabro, vestimentas rasgadas, dando um tom de podridão e o público meio que hipnotizado com todo o enredo. Confesso que teve uma hora que minha pressão deu uma caída, não sei se por conta do calor humano junto com a falta de alimentação adequada ou por conta da carga pesada que a apresentação da banda conseguia transmitir. Saí pra tomar um ar e comer um cachorro quente que me dissseram que era a fina flor pra larica. Fui lá, devorei um em poucos minutos, apoiado num pallet que localizava-se na parte gramada do local.

Devidamente alimentado e rebobinado para o consumo de mais algumas ampolas de cerveja, numa conversinha marota aceitei o convite de prolongar o rolê em algum bar da região. Empolgado e ao mesmo tempo com um sonão da massa, fui conferir a derradeira apresentação daquela noite, era a tão esperada Velho. Praticamente invertendo os integrantes da Lápide e trocando o vocalista, a banda começou o esquema bem alucinante, com o público delirando e cantarolando as cantigas de forma bem fanática. Também com os rostos desenhados, o som do Velho era algo mais acelerado, cru e direto. Com o bucho cheio e sacudindo o tronco espinhal de forma bem tosca, senti um certo embrulho no estômago, mas segurei as pontas e continuei firme prestigiando ali na lateralzinha do palco. Senti cheirinho de enxofre e uma impressão de que satanás ficou feliz (se é que pode citar este sentimento sobre o canhoto) com tudo que aconteceu naquela noite agradável. Esquema muito bem organizado, acho que era minha primeira vez na Toca o Coletivo e amay o espaço e a logística do lugar de shows e venda de cerveja/rango. Terminado os shows, um som ambiente ditou o ritmo do fim do ritual e a conversa firmou em prosseguir em outro lugar. Cansado do jeito que eu estava, só despedi do pessoal, peguei um Uber e aterrizei uns 20 minutos depois em minha nobre cama. Belo dia e ótimo rolê, agradeço aqui as bandas que pude ver e a organização, mais coisas do tipo tem que acontecer por aqui.

5.4.18

Fuck Namaste - S/T (2018)




Depois do caos que vivenciei hoje na região central de Goiânia por conta de um temporal satânico, a vontade era de ouvir algum som que representasse toda essa carniceria que a natureza proporciona juntamente com a falta de estrutura de uma cidade-província. Veio um caminhão de milho de bandas em minha mente, mas lembrei de uma que ouvi nessa semana e que marquei em minha agenda de escrever algo sobre. Bom, não tinha dia mais que ideal pra falar sobre a Fuck Namaste, banda nova lá de Caucaia/Fortaleza e que conta com a amiga Priscila nos vocais. 
O primeiro registro da banda saiu em janeiro desse ano, sem título, sem enrolação e explorando o que há de mais rápido e sujo dentro do powerviolence/fastcore. Bom, posso dizer que de primeira eu gostei do nome, que soa meio que um foda-se pra galerinha good vibes que possuem dreads bonitos e aplaudem o sol. Posso dizer também que o som me agrada bastante, pois esse esquema de som rápido, curto e sem muita estrutura ainda pega o cabra aqui de jeito. Sabe aquela coisa de vocal de gato engasgado, guitarrinha abelhuda e e percussão do olodum acelerada em 15 vezes? É disso que eu gosto, e ainda consigo ouvir um pedaço de doom aqui, uma hardcorezinho ali, que sempre dá pra ensaiar uma dancinha sem compasso no circle pit. Na derradeira cantiga tem um cover de Fuck On The Beach bem alucinante, vale ouvir umas dez vezes.
De verdade, a parte ruim é que acaba rápido e  parte boa é que é só colocar no repeat, chamar algum rango barato, boas amizades, drinks esdrúxulos e fazer aquele rolê-delícia na casa de alguém sem juízo e ter boas histórias pro dia seguinte. Bandinha bem massa que vale conhecer e propagar pelo submundo do som, pois são músicas que não lavam a alma e nem tem a intenção pra isso. Gostei do que ouvi!



1.4.18

sexta santa quase infinita

Após uma quinta santa que teve desde pessoas dando ingressos pra prestigiar o filme do edir macedo até boas pescadas de minha pessoa no bar da cida, a sexta da paixão prometia ser bem agitada, muito por conta dos rolês que já estavam esquematizados com certa antecedência e também pela oportunidade de aproveitar o feriado ao lado de boas gentes. 
O começo da quase infinita saga foi numa escola do Parque Acalanto, zona sul daqui de Goiânia. Fui acompanhar o rolê de stencil dos manos Renan (Coletivo Kaiser Crew) e Rustoff, além de mais uns manos do grafitti. No local já estavam alguns malacos e um bom rap rolando pra ditar a trilha daquela manhã ensolarada. Revi conhecidos, tive o prazer de ver o processo de pintura dos caras e em determinado momento fui convidado a comandar o som. De Wu Tang Clan, passando por Mzuri Sana e terminando com Black Helicopters do Non Phixion, o esquema todo terminou já no gongo do almoço, tudo muito massa e o cansaço gritando por todo o meu corpinho. Vale lembrar que eu estava viradão do rolê do dia anterior e só apareci em meu lar mais de 24 horas depois. 
Devidamente descansado, banhado, cheiroso e revigorado, era chegada a hora de recomeçar os trabalhos do dia, e o crime da vez era conferir a apresentação dos neozelandeses do The Cavemen e a nova formação do Bang Bang Babies. Antes, rolou a clássica session de discos no quarto mais movimento do Jarinão (prédio clássico do centrão) e depois fui fazer a função de descolar uma bateria pro evento, acompanhado de dois cabras da melhor qualidade. Tudo resolvido, partimos pro local do forró de cego, que no caso era o Shiva, bar descolado da região central da cidade e que iria receber naquela boa noite os shows das bandas citadas anteriormente. 
Chegando na porta da boca do local, dei uma leve olhada pra dentro do ambiente e notei que já estava bastante cheio, então tratei de agilizar o pagamento de minha entrada e garantir algum lugar estratégico pra começar a fazer o uso de bebidas. Antes, conversei com alguns conhecidos, os gringos da banda e consegui com certa dificuldade arrumar cadeiras pra sentar numa mesa que aos poucos foi preenchendo com um bom aglomerado de amigos. 
Entre bons papos sobre Basquiat, Hermeto Pascoal e rumos da política nacional, os primeiros acordes surgiam da pequena salinha interna do bar. Era a vez do Bang Bang iniciar as atividades sonoras da noite. Firmei num lugar estratégico da apertadinha sala e pude conferir a banda em ação com o seu novo percussionista, Julio Baron, cabra que segura as pontas de algumas boas bandas da cidade (Frieza, WxCxM, Ímpeto. E o que eu posso dizer depois do que presenciei é que a banda ganhou mais força e aceleração, músicas mais rápidas que colocaram o pessoal pra sacudir os corpos sem nenhuma hesitação. Pedrim com uma baita presença de palco e reforço aqui mais uma vez que a banda funciona muito bem em espaços mais pequenos, pois rola uma interação incrível. Teve até um Dead Rocks ali de lambuja, dancei bastante e lembrou muito os shows que eu presenciei no saudoso Capim Pub. 
Voltando para os aposentos situado na parte externa, logo começou uma chuvinha boa, fazendo com que parte das gentes presentes ficassem mais próxima. Climinha de balada torta era o que aparentava. Com uma playlist ao fundo que passeava entre Bikini Kill e Ramones, minhas idas ao balcão eram frequentes pra consumir uma bela latinha de cerva que estava com um preço razoável prum evento daquele naipe. Perambulei por alguns ambientes do espaço e topei com amizades de longa data que achei bem legal em rever. 
Mais alguns bons diálogos e era a vez dos gringos do The Cavemen mostrarem o seu poderoso som. Minha expectativa era grande por conta de alguns relatos de pessoas que tinham ouvido o som ou visto a apresentação do quarteto podre. Com um visu que lembrava muito as bandas de garage punk, os cabras começaram o torpedo sonoro que quase causou uma catarse em quem estava presente. Não eram muitos, pelo bom número de presentes por todo o ambiente, o que posso falar é que aqueles que não viram, perderam uma das melhores apresentações de rock torto que essa cidade já teve. Uma mistura suja e agressiva de Iggy & Stooges, Saints, Cramps e mais alguma coisa foda relacionada. Fiquei completamente anestesiado após o arsenal sonoro apresentado e pude notar essa impressão nos rostos e nos comentários daqueles que estavam presentes. Goiânia e o submundo precisam de mais bandas desse calibre. Agradeço aqui a Mandinga Records por proporcionar essa maravilha por um preço mais que acessível.
Parcialmente recuperado da avalanche dos neozelandeses, fui tomar um bom ar do lado de fora do espaço e passado alguns minutos, parte do bonde do pessoal de Brasília chegaram no Shiva, pois do outro lado da cidade estava acontecendo outro rolê com banda gringa (Adacta). Pícaro & Cia tomaram o lugar de assalto e o esquema estava tão massa e com papos engraçados que fomos expulsos do bar (rizos) e terminamos a madruga de forma clássica comendo um x-podrão no xodog. Uma sexta quase infinita que ainda rendeu boas histórias e risadas no dia seguinte. O mundo precisa de mais dias como esse. Obrigada. 


13.3.18

O mantra invertido de uma segunda ao avesso






Depois de passar por um finds de intensa diversão ao lado de boas gentes, a inusitada e ressaqueada segunda-feira ainda guardava boas surpresas para esta pessoa que aqui escreve. Cumprida as cruéis oito horas diárias (acrescidas de hora extra) de um dia quase arrastado e sem muito ânimo, fiz a minha peregrinação quase que rotineira de caminhar ouvindo algum som (Azymuth – Águia Não Come Mosca) em destino ao Jarinão (prédio localizado bem no coração do centro de Goiânia). Estabelecido no local citado, meu primeiro objetivo era comer alguma coisa pra forrar o bucho e não deixar a saúde e o físico em situação comprometedora. Quase matei uma espécie de PF que intitulam de jantinha lá no Bar da Cida. Um sertanejo tocando numa televisão estendida por um suporte já bem desgastado. Na rua, alguns meletas (aka moradores de rua) perambulavam pra lá e pra cá atrás de algumas moedas pra aliviar a pressão em cima da pedrinha preciosa. Cervejas desciam na mesa e eu não estava habilitado a beber naquela dia. Tudo bem, aceitei a condição.

Terminada a missão da larica desenfreada, a próxima meta era chegar na porta do Complexo, lugar que estava recebendo uma das datas da No Hope Tour, que junta dentro de uma Kombi as bandas Test e Deaf Kids pra uma gira por várias cidades neste mês de março. Logo na porta encontrei com os caras das bandas, troquei uma ideia rápida, dei mais um tempo ali na redondeza e adentrei ao espaço (que já é um dos pontos da cena alternativa da cidade). Fazendo um breve reconhecimento do terreno, topei com gentes conhecidas, figurinhas carimbadas do nosso underground também faziam-se presentes, preenchendo bem o espaço. Sentei num pallet e fiquei matando um pouco do tempo enquanto os shows não começavam.

Entre um gole numa água mineral, boas risadas de idiotices e superando o cansaço do corpo, adentrei na salinha das apresentações pra prestigiar mais uma vez o Frieza. E eu digo aqui mais uma vez: se  ainda não viu este trio ternura em ação, está perdendo a melhor banda da atualidade deste lado de cá. E nessa ocasião não foi diferente, os caras estão com a navalha na alma e com um entrosamento que causaria inveja no Kraftwerk. Com um bom público prestigiando e entrando no mesmo mantra transmitido pela banda, em determinado momento quando vi o Bruno Caveira entrando na salinha, juro que imaginei o homem tirando uma cdj (cedêjota) do bolso e começando a discotecar alguma coisa tropical com batidas descompassadas, já que se deixar o cabra discoteca até nas plataformas do eixão. Brincadeira à parte, essa foi disparada a melhor apresentação que vi da banda e conversando rápido com algumas pessoas, a opinião era a mesma. Entrosamento absurdo, intensidade que impressiona e uma entrega que faz valer cada real e esforço pra estar presente nisso que eu chamo de troca de energia através do som sincero. Me impressionou muito, mais uma vez.

Saí pra tomar um arzinho, ver pessoas e apreciar as banquinhas de merchans. Muito material atrativo pra pouco dinheiro, logo saí de perto pra não atiçar o meu lado consumista. Sentei num canto e observei a boa movimentação de corpos pra uma segunda de rolê inusitado. Num daqueles momentos “Tim Maia na fila do banheiro”, teve gentes mandando um tequinho na carteira de trabalho, um deboche elevado contra as falidas leis trabalhistas deste país. Momento de lazer e descontração que cada um merece e faz da maneira que acha necessário. Passado isso, alguém grita que estava pra começar o ritual do Test. Gosto bastante da banda e fui ligeiro pra pegar um bom lugar na sala pra ver como estavam os cabras, depois de um bom tempo sem presenciar uma apresentação da dupla. E foi diferente de tudo que eu já tinha visto deles. Falar da incrível rapidez do Barata nas baquetas já soa meio clichê, mas é sempre válido reforçar que o menino impressiona, e muito. O João continua com a mesma pegada excêntrica e agressiva de sempre, e a surpresa durante o ato foi a presença de uma percussão tribal feita pelo batera do Deaf Kids. O transe sonoro se fez presente naquele espaço e algumas entidades desceram e fizeram o seu pogo invisível. Energia intensa, corpos e olhos hipnotizados. Saí de lá parecendo que tinham me dado um banho de sal grosso, purificado. cansado e renovado.


Mas ainda faltava o Deaf Kids, que era a atração mais esperada da noite, muito por conta do lançamento de disco deles pelo selo do Neurosis e também por eles estarem na grade de programação do Bananada. Vi algumas cabeças que comumente não são vistas neste tipo de rolê, fato legal vale dizer. Falando da apresentação do trio, do começo ao fim foi uma definição do indefinido. Reverbs, distorções, experimentos, introspecção, tribal primitivo, introspecção e mais uma dose de noise muito bem elaborado. O tribal rústico, algo que lembrou muito o Maracatu da zona da mata entrelaça muito bem com toda a gama de estilos que a banda explora e insere em seus sons, feito pra descer de forma lenta e carregada de sensações/percepções. Chapei com toda a liturgia do canhoto que estava presentes nos acordes, nas batidas, nos ecos e em todo o ambiente completamente em transe profundo. Observei alguns corpos fora de seu plano, inclusive teve o baubau do Aneudes dando a sua aloprada clássica da metade pro final do rito. O saldo final disso tudo foi uma profunda catarse sonora e que me deixou com os sentimentos meio aflorados por bons minutos. Incrível.

Ao final da boa jornada, eu estava meio zumbi/meio eufórico com o que eu tinha visto, e eis que o João me intima no canto querendo uma palavra minha sobre a banda prum documentário que eles estão gravando sobre esta turnê. Não deu certo, pois eu estava ligeiro e dependendo de uma boa carona que salvou a minha noite/madrugada, mas que deixo aqui os meus sinceros agradecimentos pela consideração e lembrança pra participar de um registro importante da banda. Outras oportunidades surgirão. E pra finalizar, depois de um tempo afastado das atividades do underground clandestino, foi muito gratificante rever pessoas daqui e amigos de outras cidades. Em plena segunda-feira ver o Complexo mais cheio que num final de semana foi algo muito legal de presenciar e perceber que Goiânia ainda é carente de eventos de qualidade com preços honestos. Minha única reclamação fica comigo mesmo, que entupiu o cu de cana no final de semana e ontem mal conseguiu terminar uma latinha de Sprite. No mais, muito obrigado aos envolvidos, a vida imunda conduzida de maneira inversa ao proposto agradece sempre.

Obs.: Saudade pra caralho de fazer resenha tosca.

20.2.18

Hutt - Apocalipster (2017)


Hutt é daquelas bandas que passam do limite do grindcore extremo e chega numa sonoridade que não soar cansativo e nem repetitivo. Isso é comprovado em seu mais recente trabalho que recebe o nome de Apocalipster. Lançado no fim do ano passado pela incrível Black Hole Productions, o disco mostra uma perfeita sintonia de acelerações que rompem a barreira do grind tradicional, inserindo mais influências de sonoridade agressiva, repassando em pouco mais de vinte e seis minutos a força e originalidade do conjunto.
Seguindo a temática de horror que é uma marca registrada da banda, nesse registro as músicas se entrelaçam também entre temas sociais e políticos, espalhados em 25 faixas extremamente rápidas e caóticas. Destaque para a produção e para a concepção gráfica do encarte, que segue a linha de hq e que conta com imagens do acervo da revista Calafrio (1989). Pra quem coleciona discos e cd's este é um ótimo artigo pra ter em sua prateleira de sons horrendos. 
Eis aqui um grande trabalho de uma das mais importantes bandas da cena grindcore deste país, que remam contra a maré do óbvio e fortalecem dia após dia o lado b do underground nacional. Fudido, ouçam com as devidas proteções auriculares!


30.1.18

Tempos de Morte - Morte (2016)




Voltando dois anos no calendário, lembro que alguém tinha me mostrado esse som, mas que por algum acaso (uso descontrolado de droga) esqueci de falar dobre essa raridade sonora. Bom, a banda em questão é conhecida pela graça de Tempos de Morte e destila um excelente post punk, pra vagabundagem nenhuma botar defeito.

Em Morte a banda apresenta quatro maravilhosos sons que exploram toda a atmosfera da sonoridade deprê/obscura oitentista, transportando aquele que ouve para o clima sombrio das ruas e da vida amarga. O quarteto paulista deixa bem claro que aqui não tem o que inovar e nem inventar, seguir os passos de quem deixou o legado é necessário e por vezes coerente. Portanto se você gosta de post punk feito nos anos 80, essa banda e este registro é uma ótima pedida, sonzinho pra ouvir em dias angustiantes, acompanhado de uma boa bebida e leitura. Vai por mim, o esquema é cabuloso até umas horas, banda foda da peste!




16.1.18

Damn Youth - Breathing Insanity (2018)



O bom filho podre a casa volta e depois de uma bela queda que acabei esfolando a alma por inteiro retorno de vez com o mais imundo que pode existir ao que refere-se aos escritos de discos de bandas do lado b do subterrâneo. Para esse recomeço, nada melhor (ou pior) do que subir uma penca de quilômetros e  dichavar a mais recente obra do thrash maniac nacional. Estou dizendo do primeiro álbum da Damn Youth, bandinha maloqueira que situa-se em Caucaia/CE.
Resolvi começar por eles pelo simples fato de que fiquei retardado ouvindo esse play ao deslocar-se para a o semi aberto (aka trabalho) e no trajeto já ia matutando os escritos que iriam entrar neste espaço. Thrash Metal de bandidagem que baderna nas ruas, o disquinho chega frenético com 13 pogantes cantigas que exploram o melhor da velha escola do estilo, mesclando com o crossover forrozeiro de sempre. Logo de cara a faixa Fear Within que abre a bolachinha deixou o cabra aqui bastante empolgado com o que viria depois. E isso foi confirmado nas doze músicas seguintes, uma doidice de riffs, baquetadas, baixo berimbando sem piedade e vocais reverbados que depura qualquer ouvido seboso. Skate Revenge, Jurisdiction, Dynamite Is All That We Need, Reaching Extiction, Still Destroying the Paradise, Uncertain Days e No Future foram as que mais pertubaram o meu juízo e desejo que cause danos em sua mulêra também. O material ilícito é um lançamento da Cospe Fogo e 255 recs, e que já coloco entre os destaques dos lançamentos deste ano. Pelo jeito Vio-Lence, Slayer, Violator, D.R.I. Suicidal Tendencies & Cia ensinaram muito mais através de seus acordes e melodias aceleradas do que pais e professores do ensino tradicional. Esses doidos cearenses tiraram as devidas lições que podem ser ouvidas neste maravilhoso registro. 
No mais é isso pessoal, o blog voltou mais podre e imundo, pra falar sempre do que ninguém diz. Obrigada e espero que gostem.

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