MARY O AND THE PINK FLAMINGOS

Surf-punk psicodélico do jeito que diabo gosta

PAQUETÁ

O fino do surf music underground

15.1.19

Gin, Racionais e Satanás

Começo de ano, energias revitalizadas pra suportar esses tempos sombrios que permeiam os nossos meios e resolvi voltar mais ativo com o blog, que nesse 2019 completa dez anos de pura tosquice. Sexta passada rolou um evento-chamego em uma das novas casas da cidade, a Monkey. Devidamente programado pra bater o ponto no baile que levava o singelo título de Possessão Diabólica, logo pela manha cheguei  em minha jega (aka sala de trabalho) e desde as primeiras horas da sextinha o roteiro completo da algazarra era planejada de forma frenética nos grupos do zap em que participo. Como já tinha um tempo que a minha pessoa não dava o ar da graça nos eventos mais undergrounds, a expectativa em rever pessoas, sentir o clima do ambiente e ver de perto as bandas escaladas pro rolê era grande. Bom, terminado meu expediente, o combinado era fazer um esquenta ouvindo um som e bebendo bons drinks de gin. Compra água tônica, compra limão, compra gelo, prepara a bibida, bebe, volta a preparar, bebe novamente. E assim foi o ritual antes de chegar no local da comunhão.
Peguei um Uber com mais dois meliantes e partimos atrás da caminho do canhoto. Chegando na porta percebi que o estabelecimento de diversão roquista era bem ajeitada e aparentemente agradável aos meus lindos olhos. Depois de uma breve identificação na portaria, bêbado e de corpo aberto, fui cumprimentar o Bacural, que comandava as cantigas no esquema vitrolinha de um lado e um celular do outro. Entre um Seek & Destroy do Metallica e um Isto É Olho Seco do próprio Olho Seco, peguei uma ampola de 600 ml com um preço bem justo e sentei numa das mesas espalhadas pelo espaço externo do pub. Conversa aqui, cumprimenta ali, bebe acolá e começo a observar o lindo pessoal que aos poucos lotava o espaço. Entro na salinha pra sacar pela primeira vez o som da Sömbriö, e gostei muito do que vi. Metalpunk com umas pegadas de crust e bateria de cavalo manco,.Paulim com o seu visu que lembrava os cabras do Destruction em fase inicial, sapecava a mão na guitarra e gargarejava bonito, enquanto o Rubens empenava bumbo, caixa e pratos. Fernando, um dos baixistas que a banda possui, lapidava as cordas grossas como se estivesse esculpindo lenha no machado. Bela apresentação que abria os trabalhos da noite. Fui pra fora pegar um ar e tomar bibida, enquanto alguns olhares tortos direcionavam pra minha vestimenta (camiseta do Descendents). Poderia ter ido com alguma camisola do Hellhammer ou do Exodus, mas não tenho e o que restou foi essa, pois a peita do Twisted Sister não estava devidamente limpa. O que tinha de gente com cinto de bala no local era de impressionar, a munição que segurava as calças coladas dava pra tomar Marzagão inteira de assalto. No som, o deejay intercalava um Ratos de Porão e Sarcófago, quando chegou em meus ouvidos a informação de que teria um remix de algum discurso do Bacural em mp3. Fiquei esperando, não rolou e logo fui prestigiar a segunda banda da noite, a Dead Meat. Com nova formação em power trio, Gustavo & Cia dichavava o seu thrash metal da forma mais agressiva e crua possível. Sabe ali o Sepultura do Bestial Devastation? Então, a pegada foi essa e percebi que o público gostava do que via. Regulagem no talo, som pesado e eu me sentindo um headbanger tropical no ambientinho fechado.
Já do lado de fora, tocando um misto de Judas Priest e Iron Maiden, fui ao banheiro descarregar o líquido armazenado, e todas as vezes era um combo de 3 a 4 pessoas saindo ao mesmo tempo do toalete, não entendi bem, mas imagino que era o aperto de fazer as necessidades (pensei). Já completamente louco, mas ainda consciente, notava alguns rôustos novos e que tive a curiosidade de conhecer. Com a fome querendo manifestar, descolei umas onion rings e chamei um amigo pra dividir a iguaria comigo. De bucho cheio, carreguei a cartucheira de bibida e a cada sentada era uma munição a menos. Já com os olhinhos de peixe morto, fui sacar o som dos amigos de Brasília da Malicious Intent. A desenvoltura de Pícaro nos vocais era digna de colocar muitos frontmans no bolso. O death/grind da banda é brabo e bem orquestrado pelo quarteto, que no começo estava com a regulagem das cordas finas e grossas um tanto baixo e que foi ajustado depois de um toque que uma mina deu pra rapaziada. Não conhecia o som e interessei depois da apresentação pra saber mais sobre a banda que leva o nome de uma musiquinha do Napalm Death. Quando começou Troops of Doom do Sepultura lá fora, a metaleira toda fazia um grande coral emocionado. Aproveitei também pra passar os olhos nos merchans disponíveis e tinha uma variedade legal de materiais, vestimentas e demais artigos subversivos. Com alguns acordes começando ao fundo, fui ligeiro pra ver de perto a apresentação da clássica Desastre. Com uma nova formação que eu não me lembro de ter visto em ação, a banda passou por sons antigos e músicas do recente EP Vasto Deserto. Apresentação clássica, como sempre, que me fez sentir numa espécie de atmosfera punk oitentista. Vez ou outra meu pobre corpo era ferido por algum bracelete com pregos, isso me fez ficar mais ligado em possíveis rodas dentro daquela salinha. Do lado de fora, o clima estava maravilhoso ambientado por clássicos do metal nacional, que iam de Harppia até Taurus, deixando a nostalgia aflorar nos corações daquela gama de gente de preto. Bom, passados alguns bons minutos ali num bolinho de roda, era anunciada a abertura dos portais do inferno, pois a Flageladör (primeira vez em Goiânia) estava prestes a destilar o seu thrash metal com cheiro de enxofre. Adentrei na sala e minha pressão deu uma leve desregulada por conta da forte presença de satã naquele espaço. Logo de cara notei as vestimentas dos integrantes, e me chamou a atenção os brincos de cruz vermelha invertida que o baixista usava, além dos braceletes, resgatando a estética do estilo lá nos perdidos dos anos oitenta. O vocalista Exekutor, que se apresenta com um capuz em clara referência ao Sodom disparou clássico atrás de clássico da banda naquela noite/madrugada, com o púbico cantando, pogando e delirando. Fiquei mais no canto curtindo o peso da banda e em determinada hora em que eles tiraram os acordes de Assalto da Motoserra, me senti na atmosfera do SP METAL, tudo feito de maneira intensa e real. Diversão, ritual e reverência à esses profanos do som acelerado, foi o que eu absorvi ao final da bela apresentação, fechando a noite das bandas e que prosseguiu com a discotecagem, que nessa altura passeava entre a new wave, Billy Idol, The Clash, Ramones, e fechando em grand finale o esquema todo, o DJ atendeu a pedidos e terminou o baile com Jorge da Capadócia/Capítulo 4, Versículo 3 dos Racionais. Nem preciso dizer que fiquei emocionado, e que voltei pra casa completamente satisfeito com tudo que vi.
O Saldo final do rolê foi: bela noite em prol do metal profano, evento muito bem organizado, ambiente bom, muitos elogios para a Monkey, desde o espaço, passando pelo preço das bibidas. Espero que dure por muito tempo e que mais eventos dessa natureza volte a acontecer na cidade. Em tempos tenebrosos, andar ao contrário e resistir à sua maneira torna-se mais necessário pra que possamos construir os nossos submundos paralelos em meio à tanta repressão e ignorância. Estamos vivos!

3.1.19

Transtorno Nuclear - Hazardous Aggression (2018)


Depois de purificar o corpo com muito álcool pra receber esse novo ano complicado que já está aí, retorno mais podre e agressivo com o blog, que nesse ano completa 10 anos de muita tosquice. Pra abrir bem esse esquema, apresento-lhes o som da Transtorno Nuclear, bandinha de thrash maloca lá de Brasília que conheci num post do Camilo (Damn Youth). Ouvi, gostei e resolvi escrever alguma doidice por aqui.
Ouvindo Hazardous Aggression com calma e com o ouvidor devidamente limpo com cotonetes de marca barata, a sonoridade bateu tanto que me senti em alguma atmosfera podre dos anos 80, rodeado de latões de lixo, ratos, headbangers e entulhos. Esses joviais desajustados, crias de Violator e afins, levam à serio o esquema do thrash/crossover oldschool, sapecando o chicote no asfalto em seis cantigas muito bem orquestradas. Ouvindo o play, parece que as entidades do cinto de bala adentram em seu corpo, e mesmo que você esteja em seu quarto deitado,  o tremelique de pernas e dorso é inevitável. Como sou da cidade do césio, o nome da banda e a temática das letras me chamaram a atenção também, assim como a arte da capa que leva a assinatura do Mike Knight. 
Enfim, pra abrir os trabalhos à mando de Tranca Rua e Exu, começo com essa maravilha de banda e registro, que eu tenho certeza que você vai pirar logo de primeira, então fume aquela pedra na lata pra colocar mais pressão e paranóia na hora de ouvir essa paulada do thrash da nova geração do esgoto subterrâneo sonoro. Ouça e espalhe!

Ouça aqui:

24.12.18

Listinha básica de fim de ano pra alegrar dias ociosos




Mais um fim ano avistando e como é uma tradição por aqui, apesar da intensa ausência de postagens, montei uma listinha das coisas que curti de ouvir nesses doze meses. O único critério que segui foram os meus sentimentos por cada som indicado aqui, não significa que são os melhores, mas são os que mais agradaram os meus ouvidos de alguma forma. Ano que vem espero voltar com algumas novidades e ser mais presente nos posts toscos. Espero que gostem e que causem muitos conflitos nas reuniões familiares. Beijos e luz.


1 - Velho de Câncer - O Fim

O primeiro dessa lista é novo registro da Velho de Câncer. Em "O Fim", o grupo volta com toda a intensidade de letras e acordes que ganharam a minha eterna admiração por todo o enredo que gira em torno da banda. Muito lindo e emocionante, sem mais.

Pra ouvir



2 - Facada - Quebrante

Mais cru, frio e realista impossível, em "Quebrante" o Facada volta mais cortante do que nunca, com as letras mais pesadas, relatando em cada acorde a podre realidade humana e o buraco que é esse mundo em que situamos. O disco ficou no modo repeat por meses, causando danos em minha audição. 

Pra ouvir
https://blackholeprods.bandcamp.com/album/quebrante


3 - Djonga - O Menino Que Queria Ser Deus

Djonga é um dos meus rappers favoritos dessa nova geração. Nesse segundo disco ele consegue passar ideias fortes relacionadas ao poder preto, racismo, relacionamentos e orgulho de raça. Talvez esse foi o disco que mais ouvi nesse ano ao lado do "Boogie Naipe". 

Pra ouvir
https://www.youtube.com/watch?v=OPqUDOjDJLI&list=PLEE-L5Au_XzcMCaRPfPQNNWS54b6EK7l6

4 - M. TAKARA - Música Resiliente Para Pessoas e Lugares

Conheci o M. Takara por conta do Hurtmold, e desde então, acompanho sempre que possível sua carreira solo. Seu derradeiro lançamento é um registro muito lindo, instrumental que afloram as percepções. Música pra ouvir estudando, relaxando, viajando ou refletindo. Foda!

Pra ouvir
https://desmonta.bandcamp.com/album/m-sica-resiliente-para-pessoas-e-lugares

5 - O Inimigo - Inner Ear Session

O Inimigo é uma de minhas bandas favoritas do hardcore nacional, nesse ano os cabras lançaram um EP em formato 12 polegadas e produzido por Don Zientara (Bad Brains, Fugazi, Minor Threat. Três cantigas, maravilhosos acordes, letras intensas e aqui você encontra um belo registro. 

Pra ouvir
https://oinimigo.bandcamp.com/


6 - Expurgo - Deformed by Law

Lançado pela Black Hole, esse disco mostra o que há de mais agressivo e caótico dentro do grindcore nacional. Devastação sonora em acordes, letras e berros. Ouça sem moderação.

Pra ouvir
https://blackholeprods.bandcamp.com/album/deformed-by-law





7 - Cankro - S/T

Hardcore/punk dos mais lindos que eu ouvi nesse ano. Rapidez, sujeira, reverb, atmosfera oitentista e mais uma pitada de agressividade americana 80's. Foda!

Pra ouvir
https://nadanadadiscos.bandcamp.com/album/cankro-s-t-7







8 - Echoes of Death - ...In The Cemetery
Um verdadeiro resgate dos pilares sonoros do death metal, obscuridade, atmosfera suja e toda aquela carga pesada que o estilo trouxe pro metal e que voltou aos holofotes do nosso underground com essa banda, que nada mais é que quase (ou a mesma) gangue do Damn Youth. Muito lindo issaqui!

Pra ouvir
https://blackholeprods.bandcamp.com/album/in-the-cemetery


9 - JAH-VAN - Djavan Goes Jamaica

Belíssimo projeto que saiu nesse fim de ano homenageando o incrível Djavan. Clássicos em ritmo reggae/ska/rocksteady/dub por diversos artistas de renome. Trampo do Bid, então pode ir que não tem erro!

Pra ouvir
https://www.youtube.com/watch?v=AqxCkOIGzP4&list=OLAK5uy_kyvE21QX-JPRQWlNlmrz3lqeRU5hVnkDo


10 - Bixiga 70 - Quebra Cabeça

Assim como os trabalhos anteriores, esse disco do Bixiga 70 é uma chapação sonora em cima da mescla de diversos estilos, indo do jazz ao afrobeat, com muito groove e originalidade. Banda e disco!

Pra ouvir
https://www.youtube.com/watch?v=8ZWMx186LEI&list=OLAK5uy_nDR7oR77ogQECzWGjAITgncECzi3Zkbxo


11 - Elo da Corrente - Rosa de Jericó

Aqui está um grupo de rap que não erra no que se propõe a fazer. Em "Rosa de Jericó", mais uma vez Caio, Pitzan e PG destroem em rimas, flows, batidas, samples, referências. Um dos grandes do nosso rap! Ouça "Livre"

Pra ouvir
https://www.youtube.com/watch?v=TEG6eT_hRgg&list=PLC-zd9apTpm50eHjtZY1U3yN6m6OUSrux


12 - Desalmado - Save Us From Ourselves
Desalmado é uma das grandes bandas da atual cena extrema nacional. Eles reforçam isso em seu registro "Save Us From Ourselves", do grind ao crust, tudo com muita força, agressividade e originalidade. É paulada do começo ao fim!

Pra ouvir
https://blackholeprods.bandcamp.com/album/save-us-from-ourselves




13 - Frieza - Ao Vivo em CWB

Lançado no gargalo do fim do ano, a banda Frieza mostra toda a versatilidade de seu metal instrumental, dessa vez oriunda de uma apresentação na cidade de Curitiba. É ouvir e tirar o chapéu (estilo Raul Gil) pra esse trio ternura do metal.

Pra ouvir
https://open.spotify.com/album/2ErJB8PttuH5tQGAZ9H3yh




14 - Licor de Xorume - Pobre Consciência Humana

Banda clássica da cena do norte do país, banda com o mesmo nome do blog chega pesado com esse registro que explora o melhor do hardcore/punk. Pesado, reto e sem rodeios, catuaba core até o osso!

Pra ouvir
https://www.youtube.com/watch?v=GpbvAng_GCc&start_radio=1&list=PLlrjrFTZyf0enxD6tcZY_PEd-vEOj17j5


15 - FBC - S.C.A.
Coloquei esse disco por conta da referência da capa (Sarcófago) e também por conta do Fabrício ser um dos rappers mais interessantes que ouvi nesse ano. Muito trap, muitas ideias retas e foda-se o rap acústico.

Pra ouvir
https://www.youtube.com/watch?v=L6tnp-P0jhM







16 - Merdada - Hang Loose Pra Jesus

Projeto que junta duas bandas clássicas da cena podre deste país: Merda & Facada. Mozine, Carlos James & Cia mostram aqui algo tipo a parceria Eramos & Roberto, Xuxa & Pelé, Adriano Imperador & C.V.
Maravilha de registro!

Pra ouvir
https://www.youtube.com/watch?v=zMPAyQXSvf4




17 - Sömbriö - Cortejo Fúnebre

Metal Punx feito por uma dupla muito bem intencionada em resgatas as raízes desse estilo. Uma das boas coisas que ouvi esse ano dentro desse dito underground.

Pra ouvir
https://sombriometalpunx.bandcamp.com/album/cortejo-f-nebre




18 - Mahmed - Sinto Muito

Ouvi esse disco em alguns dias isolado em meu quarto e posso dizer por experiência própria que as composições desse registro aguçam sentimentos e percepções, deixa leve e forte ao mesmo tempo. 

Pra ouvir
https://mahmed.bandcamp.com/album/sinto-muito






19 - KL Jay na Batida Vol. 2 - No Quarto Sozinho

Segundo volume da trilogia "KL Jay na Batida", o projeto chega com a mesma ideia do anterior, apresentando nomes consagrados do rap nacional e mc's da nova geração. Muito boombap, trap e KL Jay mantém contemporâneo e com os dois pés nas raízes do movimento Hip Hop. Um dos grandes lançamentos do ano.

Pra ouvir
https://www.youtube.com/watch?v=ecQHivFOxE0&list=OLAK5uy_kKmTu9vcRChdzoSVPR1LmFvd1flcCDFpw&index=2

20 - Deaf Kids - Espiral da Loucura


Pra mim a banda e tudo gerado dela dispensa comentários.

Pra ouvir
https://deafkidspunx.bandcamp.com/album/espiral-da-loucura





21 -  Friends Call Me A.B - Variações De Uma Linha Reta

Um dos mil projetos loucos que a Propósito Recs lança em suas plataformas digitais. Batidas, synths, viagem, swing, orgânico.

Pra ouvir
https://propositorecs.bandcamp.com/








Selos que fizeram a cabeça

Mandinga Records
Nada Nada Discos
Black Hole Productions
Thrash Unreal Records
Desmonta Discos
Propósito Recs
Balaclava Records

Apresentações que fiquei sem jeito

Nick Cave & The Bad Seeds - São Paulo
Cypress Hill - São Paulo
KL Jay - Imerse - Goiânia
Deaf  Kids - Calçada Hocus Pocus - Goiânia
Frieza - Calçada Hocus Pocus - Goiânia
Lightstrucks - A Toca Coletivo - Goiânia
Mano Brown / GOG / Câmbio Negro - Brasília
Rincon Sapiência - Festival Bananada - Goiânia
The Cavemen - Shiva Alt Bar - Goiânia
Lee Ranaldo - Festival Bananada - Goiânia
Gilberto Gil Refavela 40 - Festival Bananada - Goiânia
Deaf Kids+Test - Complexo Estúdio - Goiânia
Ivo Mamona  - CEPAL - Goiânia
Keila - Complexo Estúdio - Goiânia
Ubunto - Complexo Estúdio - Goiânia
Meridians Brothers - Festival Bananada - Goiânia

9.9.18

Facada - Quebrante (2018)




Voltando pra esse espaço que serve de fuga desse mundo sombrio, espero que essa maldita vida corrida me dê um pouco de trégua pra escrever mais por aqui. Entre um projeto bem feito e outro saindo do papel depois de uns 4 anos, voltei empolgado pra colocar alguns rascunhos em dia. 
Por conta dos últimos acontecimentos dentro do cenário podre da nossa política, nada mais correto do que falar sobre o mais recente disco do Facada. A banda, que é uma das favoritas por aqui, soltou recentemente o maravilhoso Quebrante, sucessor do clássico contemporâneo do submundo da música extrema conhecido pela graça de Nadir. Nesse novo trampo, esses bandidos do subterrâneo cearense seguem a mesma linha agressiva do disco anterior, grind extremamente agressivo e boas mesclas de crust. Com uma rotina por vezes entediante durante a semana, a minha relação mais próxima com esse disco aconteceu muito no trajeto matutino para o meu trabalho. Entre um congestionamento fadigante, uma tia que sempre estava dormindo na mesma calçada em que passo todos os dias e um nóia bebendo pinga às 7 da manhã no sinaleiro, as 23 faixas de Quebrante martelavam aquele contraste diário em que eu só queria fugir daquelas cenas que eram os tapas diários que eu levava (e ainda levo) na face. Foram quase dois meses de audição intensa, entendendo a cada minuto escutado que esse mundo é uma completa farsa e que as pessoas são sujas , egoístas e podres (claro, tem aquelas que ainda compensam). As letras, além da sonoridade, sempre foram o que mais me fizeram gostar da banda, e nesse registro não é diferente, os cabras não fazem cerimônia pra falar do buraco sem fundo que é essa nossa atmosfera que mistura sociedade e poder. 
Engraçado ou não, triste ou não, nessa semana que passou, um político mais que fascista levou uma facada no bucho, talvez por discursar e propagar tanto ódio e preconceito, o bumerangue voltou contra ele de forma quase letal. Logo me veio em mente o Facada, foi coisa imediatista da mente mesmo, e não demorou muito pra galera fazer as suas analogias entre a banda e o acontecido. E muito do que é dito nesse disco, representa toda essa patifaria que circula entre internet, ruas, trabalho, faculdade e demais ambientes coletivos. Alguém mais desavisado deparando com essas músicas pode pensar que os caras são meio que visionários, mas nem é, é questão de relatar o óbvio que está bem em nossa frente.
James & Cia colocam cada vez mais a banda em um patamar elevado dentro do underground, de maneira simples, sincera e sem muito oba oba. Quem acompanha a banda de perto ou de longe sabe do que estou falando, que o Facada já é uma das lendas da música extrema desse país, o que eu lamento de verdade é de nunca ter visto uma apresentação desses loucos, sempre aconteceu algum evento ruim que zicou a oportunidade de vê-los em ação. Mas algum dia pago essa dívida pessoal, no mais só tenho a agradecer a banda pela existência e pelo barulho que fazem, agradecer a Black Hole e a Läjä por lançarem de maneira brilhante esse discásso. Vida longa sempre ao Facada!

17.7.18

Velho de Câncer - O Fim (2018)




                               


Depois de uma pequena colônia de férias num retiro espiritual pra desintoxicar o meu lindo corpinho, retorno para este espaço pra fazer uma saudação em forma de texto tosco para uma das bandas mais incríveis que já ouvi nesse território subterrâneo nacional. A Velho de Câncer, que depois virou Velho, e que agora voltou a ser conhecida pela graça do primeiro nome, retornou as suas atividades, para a plena alegria de muitas gentes, inclusive a minha.

Coincidência ou não, quando conheci a banda, estava passando por um momento transitório em minha vida, e naquele momento as letras, melodias e a força sentimental angustiante do Zé Ulisses fez um sentido enorme pra mim. Pulando pra esse 2018 meio louco, passo por uma situação parecida, de readaptação da rotina e dos objetivos de um rumo sem certezas. E com uma grata surpresa, semana passada caiu de bandeja em meu colo o novo registro da banda. Bom, tratei logo de baixar nas plataformas de streaming e ouvir de cabo-a-rabo, deixando no modo repeat, enquanto eu fazia os ajustes quase infinitos dos mapas dos municípios de meu Estado, em meu famigerado trabalho.

A intensidade soou como antes e fez minha memória rebuscar os momentos da época em que ouvia quase que diariamente o disquinho da banda. Indo pra faculdade, saindo do estágio, na casa dos meus amigos no atheneu, dentro do carro indo pra algum rolê no Martim ou no Capim, e por fim, no último volume  trancafiado em meu quarto. Não tinha blog nessa época, não tinha muitos compromissos, muito menos cobranças de uma vida padrão. Os amores eram outros, mais vagabundos e mais livres. Uma época realmente muito proveitosa e que me preparou muito pra poder chegar bem até aqui. Nostalgia é isso, aflora com algo bem marcante.

Voltando nesse novo disco, uma demo com nove músicas que de tão boa passa rápido e que deixa aquele suspiro gratificante na alma (bom, foi assim comigo). Não falo aqui de ser a melhor gravação ou o melhor timbre, falo das sensações intensas passadas através de letras e melodias que falam das angústias e da falta de encaixe num mundo cada vez mais cruel com os sensíveis. Ouvindo cada faixa desse disco pensei em meus amigos que estão ao meu lado, daqueles que estão perdidos por alguma razão, pensei em minha família, dos seus problemas diários, pensei em meus amores e desamores que surgem a cada dia, pensei nas pessoas legais que encontrei e que me conectei de alguma maneira nesses últimos meses. Sou muito emotivo e talvez essa seja a fase de minha vida em que ando colocando todas as minhas vontades e impressões pra fora, sem hesitar em me entregar as situações, me fodendo e me divertindo com isso, e a demo "O Fim" chegou na melhor hora de um quebra cabeça que aos poucos vai terminando de se encaixar. 

Se em 2008 quando meu irmão me apresentou a banda o impacto foi devastador, dez anos depois a pancada na moral foi a mesma. Não vou destacar faixas, deixo pra vocês definirem isso de maneira bastante pessoal, o que eu vou fazer é agradecer a trinca Zé Ulisses, Jonas e Lucas por definirem em pouco mais de trinta minutos os parafusos espanados que representam o norte de vidas que estão no tabuleiro desse sistema que judia cada vez mais. Isso aqui é uma sobrevida pra quem anda cansado e  vê pouca identificação ao redor, que vale muito colocar todos os demônios pra fora como um ato de revolução interna. 

Do ônibus lotado à tia que dorme na calçada nesse frio diurno de 15 graus em Goiânia, o cotidiano é cruel e temos que buscar sentido em outras situações pra não surtar nessa frequência em que estamos. Aqui fica o meu muito obrigado ao Velho de Câncer, ao punk, as amizades verdadeiras e pra essa porra toda que ainda faz um sentido do caralho em minha vida. Valeu, é isso.



18.5.18

delírios e surpresas de um sábado ternura







O meu sábado tinha começado como toda a semana do Bananada, de ressaca e já planejando no whatsapp as ações de marketing pessoal do dia. O itinerário apontava pra um show na porta da Hocus Pocus e apresentações de Rincon Sapiência e Pablo Vittar. Tomei um banho, vi o doc Gimme Danger que mostra a história dos Stooges, descansei mais um bocado e fui em rumo ao centro da cidade. Chegando lá fui informado que o samba-esquenta-noise seria num bar que localiza-se num beco meio treta. Chegando lá, os infames de meus amigos me informaram que já iriam pro local da apresentação, fazendo este aqui gastar um pouco mais da sola do pisante. Bom, fui direto pra porta da Hocus Pocus e chegando lá notei que nada estava montado e que um certo atraso ocorreria. Como eu não estava com pressa, esperei pelas imediações consumido algumas ampolas de cerveja. Aos poucos os equipamentos chegavam e o público aumentava de acordo com o avançar das horas. Conversas e mais conversas, ganhei um vinil de Frankito Lopes (o índio apaixonado) das mãos de meu querido irmão, fiquei feliz pelo bom agrado e aquilo foi uma espécie de abrem os caminhos para o que me esperava naquela tarde/noite/madrugada.

O Frieza (ou Friêra para os íntimos) estava já preparado pra começar o ritual inverso da música sem padrões. Posso dizer que a apresentação foi intensa e densa como as outras que já tinha presenciado, com carros, ônibus, motocas e pedestres passando na porta do esquema, em que praticamente todos reparavam com olhares espantosos, observando aquela ruma de gente podre, feia e vestida de preto. Ao final do concerto, parte do público demonstrava claramente a sua satisfação nos olhares e sorrisos, juntamente com a presença ilustre do molecote Psica, figurinha clássica dos rolês da Hocus Pocus. Outra coisa legal que acontece nas apresentações do Frieza é a encenação teatral do Júlio (batera) ao final dos shows, em que o cabra simula uma vertigem, um extremo cansaço e ameaças de desmaio por conta da extrema intensidade do bagulho, quem já viu e não saca do esquema-projac do raparigo tenta até ligar pro Samu ou Bombeiros. Enfim, mais uma apresentação cabulosa do trio, que cada vez mais fixa a cruz invertida na cena do metal extremo deste país.

Depois disso era a vez do Deaf Kids mostrar o seu set noise-seduction. A noite chegava e o clima ficava melhor, na medida em que cada ampola secava em questão de minutos. Com uma apresentação cheia de efeitos, reverbs, fritações e descompasso, faltou só uma feasta de doce pra psicodelia ficar completa e derretida naquela noite boa de sábado.  Ao fim da viagem anti-sonora, ganhei algumas cervejas que estavam alojadas num sacão preto de lixo, fui abordado por uma dupla de joviais que que vieram agradecer a existência do blog e pela destruição que meus escritos fizeram em suas vidas. Agradeci, peguei o contatos dos cabras e depois fomos pro segundo tempo do samba-esquenta-noise, dessa vez la no Bar da Cida. De lá fui direto pro Bananada e foi aí que as surpresas surgiram de todas as formas.

Encontrando muita gente que não via por anos, dei uma passada no stand da Farm pra cumprimentar amigas e ver os looks que estavam bombando nessa estação. Gostei de um jaco, mas não do preço. Carreguei a pulseirinha da alegria e foi iniciada a farra dos 3 chopps por 20 golpes. Naquele dia em específico estava rolando chopp IPA nessa promo, talvez por conta da grande desorganização que aconteceu na sexta. Essa foi uma das surpresas que tive naquela noite fria e movimentada. Com muita expectativa pra ver o Rincon Sapiência e nenhuma pra sacar a Pablo Vittar, fiquei completamente extasiado com o show do Manicongo e pra minha grata surpresa, a Pablo fez uma apresentação impecável que colocou este aqui que escreve pra dançar muito. Bom, as outras supresas da noite ficam na bolinha de meia, pois assim que é. Voltei pra casa e no outro dia saí com mamãe pra comemorar o dia das mães, coisa que eu não fazia por anos. Vou reclamar de quê, tenho só que agradecer aos envolvidos, as amizades sinceras e que esse rolê quase infinito teve muitas histórias e o que resta agora é só a saudade disso tudo. Ganhei uma gripe nisso aí também, pois nada é perfeito nessa vida. Valeu mundão!


Obs.: essse texto foi escrito ao som do disco New Values do pai de todos, Iggy Pop

10.5.18

Uma mandinga pra quarta-feira




Pra quem começou a semana pegando o double-magic da performance do Lee Ranaldo (Sonic Youth carai), a quarta sem responsabilidade prometia ser um tanto quanto alucinante. Dentro da vasta programação do Bananada, a Mandinga Records tava com um showcase na  Toca o Coletivo bem interessante, que juntava três bandas que ajudam a compor parte da nata da música torta sem holofote deste país.

Antes, fiz um corre frenético pra chegar em casa pra cortar o bêlo, tomar um bom banho pra tirar o sebo acumulado do dia e só assim poder partir pro destino já traçado. Antes passei no Fernandêra (distro bate-ponto do meu clã bandido) e peguei um cartucho de antarctica pra desatar o nó e inaugurar o ritual daquela noite fresca. Vento batendo na cara, espera curta no ponto de ônibus, condução vazia, boas histórias, meletinha sentado no banco da última fileira de forma estratégica e desci na rota planejada. Passei no mercado, desmanchei dois quibes em forma de disco com a ajuda de uma lata de soda limonada e depois do bucho cheio, descolei com meus companheiros uma caroninha curta com o Israel (sim, é o mesmo cabra que você deve tá questionando) até o local do evento. Chegando na porta, percebi a pouca movimentação e alguns rostos conhecidos que estavam na parte interna do local. Ajudei meu amigo a matar umas latas antes de entrar no recinto. 

Devidamente alojado na parte interna do estabelecimento, identifiquei rapidamente o local de venda de bebidas e os banheiros, locais estratégicos e que perambulo com certa frequência. Com um som ambiente que variava entre algum garage rock e Ramones, começava os preparativos para o início das apresentações. Quem ficou com a responsa de abrir os trabalhos foi a local e querida Bang Bang Babies, banda daqui que tenho um bom apego. E a bandidagem não decepcionou com o seu set mais que feroz, deixando este que aqui relata com o corpinho esquentado para as horas seguintes. A Bang Bang é uma banda que funciona muito bem em locais mais apertados, e lá na salinha do local foi o encaixe perfeito. Com algumas dezenas de pessoas assistindo a bela performance de Pedrim e seus parças, saí pra tomar um ar e gostei bastante da intensidade que os cabras passaram, algo bem sincero e real.

Sentado num toco e papeando sobre a vida e as possibilidades incertas de um futuro podre, notei que a presença de gentes não aumentaria de maneira considerável, então fui pegar mais um cartucho, dessa vez de budweiser, namorei o merchan disponível e fui novamente pra salinha pra sacar o Colt Cobra, bandinha lá de Vila Velha. O esquema começou alucinante com uma pegada meio tribal, que no desenrolar da apresentação mostrou uma mistura nervosa de surf garageiro com blues, lembando Sonics, Gories, Stooges e coisas do tipo. Com um certo grau já elevado na cabeça, curti muito o som, meio que deixou meu corpo hipnotizante, dançando até quando não queria. 

Com uma movimentaçãozinha esquema-noize quase frenética nos banheiros, tirei um tempinho pra cagar e recuperar meu estômago. O ruim de você obrar em lugar com gentes, é a falta de concentração por conta das conversas e pisadas nos arredores do toalete. Mas okay, matei o bicho e o azar foi de quem entrou logo depois. Depois de um certo tempo era a vez da Light Strucks, banda de surf music instrumental de Uberlândia. Essa era a minha maior expectativa da noite, pois ouvi bastante o vinil deles por alguns meses e sabia que o lance era muito foda. Então quando começou, tratei de virar um cartucho numa golada só pra bater a onda forte, e bateu. E a apresentação foi uma das mais loucas que vi nesses tempos, juntamente com o show do The Cavemen. Ali naquela salinha aconchegante até deus dançou com o surfzão psicodélico que deixou o pai aqui alucicrazy e e desarmado na guarda. Banda mais que cabulosa que compensou o esforço do itinerário. 

Pra finalizar, só digo o que o Julio (batera do Bang Bang Babies) falou em alguma ocasião, as melhores coisas acontecem nesse nosso subterrâneo sonoro, quase sempre pra pouca gente e sempre vai ser a melhor opção, Nunca me arrependi dessa verdade que participo e que esta dentro do dito underground, Meu muito obrigado aos envolvidos e as envolvidas. 

30.4.18

Desalmado - Save Us From Ourselves (2018)



Retornando depois de dias movimentados e intensos pra falar do que mais gosto: som pesado e bem feito. Desta vez chego com o mais recente trabalho da Desalmado, quarteto paulista que já tem uma boa caminhada dentro do nosso underground e que neste ano apresentou para o submundo da música extrema  o excelente Save Us From Ourselves. 
O disco, no quesito sonoridade, segue a linha deathgrind que colocou a banda no game da dita cena, com influências nítidas do crust, hardcore e nuances de som tribal. Cantarolado todo em inglês, a banda dichava no decorrer das noves músicas, influências de Napalm Death (fase metal), Nasum, Ratos de Porão, Dishcarge  e mais coisas semelhantes do tipo. De todos os trabalhos que a banda já lançou e que tive a oportunidade de ouvir, considero esse o mais coeso e encorpado, talvez a experiência de estrada (desde 2004 na ativa) possa explicar o primor que começa pela capa, encarte, letras e termina nas excelentes composições do quarteto. 
Com uma paulada atrás da outra em pouco mais de vinte e cinco minutos, posso destacar algumas cantigas que roubaram a minha atenção por mais vezes. Foi o caso da música que leva o título do disco, Save Us from Ourselves, que tem uma pegada tribal maravilhosa em sua introdução, que remete as influências percussivas dos mestres mineiros conhecidos pela graça de Sepultura. Outra música cabulosa que destaco recebe o título de Blessed My Money, grind moderno com boas pegadas de crust/hardcore que pode ser rotulada como uma catarse sonora, dada a tamanha intensidade que o som transmite. Bridges to a New Dawn possui um vídeo clipe incrível (veja no final do post) e mostra um pouco de toda a miscelânea extrema inserida na banda. Meu outro destaque vai para Binary Collapse, grind com pitadelas de d-beat (bateria cavalo-manco) que soa bem contemporâneo sem deixar a velha escola de lado.
Outro destaque fica para as composições, pois se tem algo que gosto de valorizar dentro dessa cena é a mensagem que a banda passa. Resistência em tempos obscuros é mais que necessário e a Desalmado não foge da reta, apresentando letras libertárias com forte cunho social e desgarrado de dogmas. Nem preciso falar que coisas do tipo costumo valorizar mais do que o normal e faço questão de destacar esse posicionamento da banda perante as situações de nosso cotidiano. Nota máxima, sem tirar um décimo.
A maravilha de capa e o poster interno é de autoria do brilhante Jeca Paul (cösmico zine), que deixou o trampo mais fino ainda. Lançamento da master Black Hole Productions, sempre impecável em seu cast e que sempre dá aquela sobrevida a cena extrema deste país. O lançamento ainda teve o apoio da Helena Discos, vale ressaltar.
A nítida transição do grind e o death talvez seja um dos diferenciais que fazem da Desalmado um dos grandes destaques da cena extrema nacional, e este lançamento só reforça o nome da banda entre os principais destaques do grindcore da atualidade. Quem conhece sabe do que estou falando e pra quem não conhece, ainda está em tempo de corrigir esta falha grave. Baita banda e disco incrível!!!



Obs.: resenha morreu o caralho.




10.4.18

Cream Cracker, Corpse Paint e Enxofre





Na derradeira sexta, estava eu arquitetando as coordenadas da diversão daquela noite quando chegou a info de que um belo trio ternura estabelecidos em Brasília estariam por essas bandas de cá. Fiquei sabendo que os mesmos estavam sedentos por um bom rolê na cidade, então começou surgir as possibilidades de lugares pro chamego das próximas horas. Entre as opções jogadas na roda de conversa do whats, brotou o interessante evento “Satã, apareça!”. Até então confesso que não queria fazer algo que envolvesse shows, mas sim bares ou boates. Mas acabou que me convenceram de ir pro lugar, no caso era A Toca Coletivo, e já fui me preparando para as aventuras daquela noite.

Com temática black metal, o esquema trazia pela primeira vez por essas bandas de cá a carioca Velho, além de outras atrações que citarei ao longo do escrito. Antes disso, quando a sirene tocou e a liberdade cantou, parti em rumo ao Jarinão, no trajeto que estava bastante ensolarado, fui ouvindo um bom Jazzmatazz Volume 1. Parei no peg-pag pra comprar uma latinha, soltei 3 dinheiros numa ampolinha semi-gelada. Foi o prazo de chegar na boca da praça cívica pra bebida ficar em temperatura ambiente, o que me fez jogar o restante que sobrou no alumínio numa lixeira que tinha dois pombos mortos. Castigado pelo solzão e levemente aliviado pela cerveja, cheguei no Jarina e a clássica session de discos estava pra iniciar. Entre umRatos de Porão ao vivo (aê, sofrê), Probot (projeto cabuloso do Dave Grohl), The Clash e mais alguma coisa que agora falhou na memória, descemos no Jesus (bar localizado embaixo do prédio) e adquirimos alguns litrões, além de um salgadinho de pele de porco que estava bem chegado no tempero marinho.

Passadas algumas horas, e com a clara intenção de economizar dinheiro com Uber, partimos em trio num coletivo do péssimo transporte público desta cidade. Durante o trajeto entraram algumas mulheres com sotaque nortista e agitaram um pouco o ambiente vazio do ônibus. Em determinada hora do itinerário, uma delas retirou uma embalagem aberta de Cream Cracker e foi oferecendo para as demais, e eu que estava no meio do bolo fui questionado na aceitação de uma unidade da bolacha. Com um pouco de vergonha e com um pouco de surpresa recusei educadamente a oferta e no decorrer do trajeto até o destino final, com as conversas mais idiotas possíveis, essas mulheres não conseguiam segurar o riso e caíam na gaitada. Descemos nas imediações do local do crime e antes disso passamos no mercado pra comprar umas cervejas. Passando no caixa pra acertar o que seria consumido, notamos um casal passando uma compra um tanto peculiar, no caso era uma garrafa de Domus juntamente com um refrigerante Goianinho Zero. Depois disso fomos pro local da festa invertida e percebi que já tinha uma boa movimentação de gentes. Adentrando no recinto, topei com uma galera que eu não via já tinha um certo tempo, perambulei pelo espaço do lugar, que é bem amplo e confortável de certa forma. Comprei algumas fichas de cerveja, pisei no gramado, já que não era proibido, sentei na muretinha e comecei a observar o pessoal. Desde as épocas antigas dos rolês do DCE que eu não via tanta galera que curte blackmetal reunida. Conversas aqui, cumprimentos ali, roustos conhecidos e desconhecidos que depois tornaram conhecidos (rizos) e chegou a notícia de que já tinha rolado a apresentação do Heia. Queria ter visto, mas paciência.

Aproveitei o intervalinho entre as bandas pra namorar os materiais que estavam expostos, confesso que quase fiz loucura por conta do consumismo, tinha muita coisa legal, mas segurei a onda e voltei pro meu lugar de origem. Passado isso, adentrei na salinha pra apreciar a próxima banda, que no caso era aOrgiy of Flies, death metal de Formosa. Tudo muito oldschool, a banda representa e propaga o que há de melhor da primeira fase do estilo, misturando também a fase inicial do black metal em sua sonoridade. Apresentação muito técnica e pesada, era a primeira vez da banda aqui em Goiânia. Confesso que não conhecia o som e fiquei impressionado com a apresentação, com o vocal-berrante que ecoava pelas paredes da salinha e observei o público compenetrado no som do começo ao fim. Depois dessa avalanche voltei pro espaço externo, conversando com gentes de todos os tipos, cores e visuais. Em determinando momento em que eu estava num bolinho de resenha, rolou uma situação das mais inusitadas e um tanto hilária bem no momento em que um amigo foi pedir o isqueiro emprestado paraumas meninas que estavam do nosso lado. O esquema já virou piada interna dos nossos rolês. Passado isso, era a vez do Sociofobiasubir ao palco pra destilar o seu metalpunx mais que tradicional, já tinha algum tempo que eu não via a banda em ação e foi massa ver a força e a energia dos caras depois de tanto tempo tempo de banda, mais de 15 anos na ativa. As apresentações são sempre clássicas e com um ar de nostalgia, algo parecido que presencio quando vejo oDesastre tocando por aí.

Depois disso fui pra portaria ajudar no controle de entrada e saída de gentes, sempre um probleminha chato que rola nos eventos undergrounds, mas sempre consegue-se controlar e levar tudo na moral.Faltavam as duas principais bandas da noite pro baile ao avesso terminar, e a penúltima deu a machadada final e iniciou-se o rito na salinha. Adentrei e senti um clima pesado, era a Lápide vociferando o seu black metal, tocado mais arrastado e muito performático por parte do vocalista. Rostos pintados (Corpse Paint) que davam um efeito visual mais macabro, vestimentas rasgadas, dando um tom de podridão e o público meio que hipnotizado com todo o enredo. Confesso que teve uma hora que minha pressão deu uma caída, não sei se por conta do calor humano junto com a falta de alimentação adequada ou por conta da carga pesada que a apresentação da banda conseguia transmitir. Saí pra tomar um ar e comer um cachorro quente que me dissseram que era a fina flor pra larica. Fui lá, devorei um em poucos minutos, apoiado num pallet que localizava-se na parte gramada do local.

Devidamente alimentado e rebobinado para o consumo de mais algumas ampolas de cerveja, numa conversinha marota aceitei o convite de prolongar o rolê em algum bar da região. Empolgado e ao mesmo tempo com um sonão da massa, fui conferir a derradeira apresentação daquela noite, era a tão esperada Velho. Praticamente invertendo os integrantes da Lápide e trocando o vocalista, a banda começou o esquema bem alucinante, com o público delirando e cantarolando as cantigas de forma bem fanática. Também com os rostos desenhados, o som do Velho era algo mais acelerado, cru e direto. Com o bucho cheio e sacudindo o tronco espinhal de forma bem tosca, senti um certo embrulho no estômago, mas segurei as pontas e continuei firme prestigiando ali na lateralzinha do palco. Senti cheirinho de enxofre e uma impressão de que satanás ficou feliz (se é que pode citar este sentimento sobre o canhoto) com tudo que aconteceu naquela noite agradável. Esquema muito bem organizado, acho que era minha primeira vez na Toca o Coletivo e amay o espaço e a logística do lugar de shows e venda de cerveja/rango. Terminado os shows, um som ambiente ditou o ritmo do fim do ritual e a conversa firmou em prosseguir em outro lugar. Cansado do jeito que eu estava, só despedi do pessoal, peguei um Uber e aterrizei uns 20 minutos depois em minha nobre cama. Belo dia e ótimo rolê, agradeço aqui as bandas que pude ver e a organização, mais coisas do tipo tem que acontecer por aqui.

5.4.18

Fuck Namaste - S/T (2018)




Depois do caos que vivenciei hoje na região central de Goiânia por conta de um temporal satânico, a vontade era de ouvir algum som que representasse toda essa carniceria que a natureza proporciona juntamente com a falta de estrutura de uma cidade-província. Veio um caminhão de milho de bandas em minha mente, mas lembrei de uma que ouvi nessa semana e que marquei em minha agenda de escrever algo sobre. Bom, não tinha dia mais que ideal pra falar sobre a Fuck Namaste, banda nova lá de Caucaia/Fortaleza e que conta com a amiga Priscila nos vocais. 
O primeiro registro da banda saiu em janeiro desse ano, sem título, sem enrolação e explorando o que há de mais rápido e sujo dentro do powerviolence/fastcore. Bom, posso dizer que de primeira eu gostei do nome, que soa meio que um foda-se pra galerinha good vibes que possuem dreads bonitos e aplaudem o sol. Posso dizer também que o som me agrada bastante, pois esse esquema de som rápido, curto e sem muita estrutura ainda pega o cabra aqui de jeito. Sabe aquela coisa de vocal de gato engasgado, guitarrinha abelhuda e e percussão do olodum acelerada em 15 vezes? É disso que eu gosto, e ainda consigo ouvir um pedaço de doom aqui, uma hardcorezinho ali, que sempre dá pra ensaiar uma dancinha sem compasso no circle pit. Na derradeira cantiga tem um cover de Fuck On The Beach bem alucinante, vale ouvir umas dez vezes.
De verdade, a parte ruim é que acaba rápido e  parte boa é que é só colocar no repeat, chamar algum rango barato, boas amizades, drinks esdrúxulos e fazer aquele rolê-delícia na casa de alguém sem juízo e ter boas histórias pro dia seguinte. Bandinha bem massa que vale conhecer e propagar pelo submundo do som, pois são músicas que não lavam a alma e nem tem a intenção pra isso. Gostei do que ouvi!