MARY O AND THE PINK FLAMINGOS

Surf-punk psicodélico do jeito que diabo gosta

PAQUETÁ

O fino do surf music underground

13.3.18

O mantra invertido de uma segunda ao avesso






Depois de passar por um finds de intensa diversão ao lado de boas gentes, a inusitada e ressaqueada segunda-feira ainda guardava boas surpresas para esta pessoa que aqui escreve. Cumprida as cruéis oito horas diárias (acrescidas de hora extra) de um dia quase arrastado e sem muito ânimo, fiz a minha peregrinação quase que rotineira de caminhar ouvindo algum som (Azymuth – Águia Não Come Mosca) em destino ao Jarinão (prédio localizado bem no coração do centro de Goiânia). Estabelecido no local citado, meu primeiro objetivo era comer alguma coisa pra forrar o bucho e não deixar a saúde e o físico em situação comprometedora. Quase matei uma espécie de PF que intitulam de jantinha lá no Bar da Cida. Um sertanejo tocando numa televisão estendida por um suporte já bem desgastado. Na rua, alguns meletas (aka moradores de rua) perambulavam pra lá e pra cá atrás de algumas moedas pra aliviar a pressão em cima da pedrinha preciosa. Cervejas desciam na mesa e eu não estava habilitado a beber naquela dia. Tudo bem, aceitei a condição.

Terminada a missão da larica desenfreada, a próxima meta era chegar na porta do Complexo, lugar que estava recebendo uma das datas da No Hope Tour, que junta dentro de uma Kombi as bandas Test e Deaf Kids pra uma gira por várias cidades neste mês de março. Logo na porta encontrei com os caras das bandas, troquei uma ideia rápida, dei mais um tempo ali na redondeza e adentrei ao espaço (que já é um dos pontos da cena alternativa da cidade). Fazendo um breve reconhecimento do terreno, topei com gentes conhecidas, figurinhas carimbadas do nosso underground também faziam-se presentes, preenchendo bem o espaço. Sentei num pallet e fiquei matando um pouco do tempo enquanto os shows não começavam.

Entre um gole numa água mineral, boas risadas de idiotices e superando o cansaço do corpo, adentrei na salinha das apresentações pra prestigiar mais uma vez o Frieza. E eu digo aqui mais uma vez: se  ainda não viu este trio ternura em ação, está perdendo a melhor banda da atualidade deste lado de cá. E nessa ocasião não foi diferente, os caras estão com a navalha na alma e com um entrosamento que causaria inveja no Kraftwerk. Com um bom público prestigiando e entrando no mesmo mantra transmitido pela banda, em determinado momento quando vi o Bruno Caveira entrando na salinha, juro que imaginei o homem tirando uma cdj (cedêjota) do bolso e começando a discotecar alguma coisa tropical com batidas descompassadas, já que se deixar o cabra discoteca até nas plataformas do eixão. Brincadeira à parte, essa foi disparada a melhor apresentação que vi da banda e conversando rápido com algumas pessoas, a opinião era a mesma. Entrosamento absurdo, intensidade que impressiona e uma entrega que faz valer cada real e esforço pra estar presente nisso que eu chamo de troca de energia através do som sincero. Me impressionou muito, mais uma vez.

Saí pra tomar um arzinho, ver pessoas e apreciar as banquinhas de merchans. Muito material atrativo pra pouco dinheiro, logo saí de perto pra não atiçar o meu lado consumista. Sentei num canto e observei a boa movimentação de corpos pra uma segunda de rolê inusitado. Num daqueles momentos “Tim Maia na fila do banheiro”, teve gentes mandando um tequinho na carteira de trabalho, um deboche elevado contra as falidas leis trabalhistas deste país. Momento de lazer e descontração que cada um merece e faz da maneira que acha necessário. Passado isso, alguém grita que estava pra começar o ritual do Test. Gosto bastante da banda e fui ligeiro pra pegar um bom lugar na sala pra ver como estavam os cabras, depois de um bom tempo sem presenciar uma apresentação da dupla. E foi diferente de tudo que eu já tinha visto deles. Falar da incrível rapidez do Barata nas baquetas já soa meio clichê, mas é sempre válido reforçar que o menino impressiona, e muito. O João continua com a mesma pegada excêntrica e agressiva de sempre, e a surpresa durante o ato foi a presença de uma percussão tribal feita pelo batera do Deaf Kids. O transe sonoro se fez presente naquele espaço e algumas entidades desceram e fizeram o seu pogo invisível. Energia intensa, corpos e olhos hipnotizados. Saí de lá parecendo que tinham me dado um banho de sal grosso, purificado. cansado e renovado.


Mas ainda faltava o Deaf Kids, que era a atração mais esperada da noite, muito por conta do lançamento de disco deles pelo selo do Neurosis e também por eles estarem na grade de programação do Bananada. Vi algumas cabeças que comumente não são vistas neste tipo de rolê, fato legal vale dizer. Falando da apresentação do trio, do começo ao fim foi uma definição do indefinido. Reverbs, distorções, experimentos, introspecção, tribal primitivo, introspecção e mais uma dose de noise muito bem elaborado. O tribal rústico, algo que lembrou muito o Maracatu da zona da mata entrelaça muito bem com toda a gama de estilos que a banda explora e insere em seus sons, feito pra descer de forma lenta e carregada de sensações/percepções. Chapei com toda a liturgia do canhoto que estava presentes nos acordes, nas batidas, nos ecos e em todo o ambiente completamente em transe profundo. Observei alguns corpos fora de seu plano, inclusive teve o baubau do Aneudes dando a sua aloprada clássica da metade pro final do rito. O saldo final disso tudo foi uma profunda catarse sonora e que me deixou com os sentimentos meio aflorados por bons minutos. Incrível.

Ao final da boa jornada, eu estava meio zumbi/meio eufórico com o que eu tinha visto, e eis que o João me intima no canto querendo uma palavra minha sobre a banda prum documentário que eles estão gravando sobre esta turnê. Não deu certo, pois eu estava ligeiro e dependendo de uma boa carona que salvou a minha noite/madrugada, mas que deixo aqui os meus sinceros agradecimentos pela consideração e lembrança pra participar de um registro importante da banda. Outras oportunidades surgirão. E pra finalizar, depois de um tempo afastado das atividades do underground clandestino, foi muito gratificante rever pessoas daqui e amigos de outras cidades. Em plena segunda-feira ver o Complexo mais cheio que num final de semana foi algo muito legal de presenciar e perceber que Goiânia ainda é carente de eventos de qualidade com preços honestos. Minha única reclamação fica comigo mesmo, que entupiu o cu de cana no final de semana e ontem mal conseguiu terminar uma latinha de Sprite. No mais, muito obrigado aos envolvidos, a vida imunda conduzida de maneira inversa ao proposto agradece sempre.

Obs.: Saudade pra caralho de fazer resenha tosca.