17.11.11

O legado de Joaquim Extremo (sobre)vive

E aí negadis, tudo na paz de sempre? É o seguinte, no último sábado, 12 de novembro, estava eu saindo de minha hype aulinha de inglês e indo passar o dia com a melhor pessoa que existe. Comidéx, bombons, filmes e eis que recebo uma ligação de meu querido irmão, o mesmo me chamava para ir em Brasólia, pois mais tardinha daquele dia iria rolar o Caga-Sangue Thrash. Pra quem não conhece, esse lyndo evento existe desde 2004, com o seu primeira edição sendo realizada no saudoso Bar dos Encontros e chegando nessa edição 2011, com o Círculo Operário do Cruzeiro Velho, como o local que iria abrigar as centenas de peões e desviadas. Pois bem, a felicidade e ansiedade bateu imediatamente com a possibilidade real de ir de encontro à pessoas feias, sem classe e que gostam de música rápida, por outro lado, batia um desapontamento por deixar deixar de estar junto por algumas horas com a pessoa mais incrível que existe desde uns tempos pra cá em minha tosca vida. Pois bem, parti, com destino à capital do país, epicentro em que se situa xs maiores pilantras dessas terras. Conversas, risadas, pausa para rangar no Jerivá e eis que chego ao nobre local da cabarezágem. Clima bom, pessoas boas, cerveja gelada e Adelino Nascimento comendo solto no meu celular. Perambulei pelas dependências do local, senti cheiro de erva que polícia militar oprime na USP e em tantos outros lugares e becos desse país, senti o aroma podre dxs seres que por ali andavam e também senti o odor de bosta seca de mengingo bebâdo pairando pelo ar. A primeira impressão já foi boa por demais pra mim e a noitóla só estava começando. Muita coisa boa era de acontecer por ali, pensava eu, então parti para o ataque e de cara já havia pisado em merda de gato estrupiado, ou seja, realmente a noite começava boa pra mim!

Pois bem, as oferendas para Iemanjá começara com a novíssima banda de Manga(Gracias Por Nada) e Poney(Violator, Ameça Cigana..), soltando um hardcore/punk bem aos moldes oitentistas. Cidade Cemitério, nome do querido conjunto de música, conseguiu sacolejar os ossos dxs
infelizes que por ali estavam, alguns correndo com fumaça de cor pelas dependências do Circulo Operário, outros soltando bombinhas de São João e outrxs simplismente observando o show, trocanndo ideia ou usando tóxico que mamãe não gosta. Apresentação bonita dos bacharéis e a certeza que a noitóla seria boa só aumentava cada cantiga gritada, a cada raparigo descontrolado que sacolejava a juba do naipe de brinquedo do ITA que causa vômito.

O Tirei Zero, banda daqui da cidade, se preparava para subir ao palco do Circulo, enquanto minha pessoa roletava entre as banquinhas com os produtos expostos. Eram camisetas, adesivéx, patchs, rango natureba, discos, cds, pessoas feias e sem classe. Voltei para o meu querido posto, lugarzim de bouéx, perfeito para ver as apresentações, sem ser atingido com cutuveladas ou algo do tipo, aliás, tinha um raparigo
com porte físico um tanto avantajado, visual Suicidal Tendencies de luta livre que passava medo e apreensão à todxs nas rodas, a cada tentativa de mosh em vão. Enfim, a cambada pequizeira começava o baile da terceira idade, com Pedrinho e Bruno muito empolgados, como de praxe. Júlio, alimentando-se com as baquetas e desvinculando-se totalmente da lembrança faceira com o "muxibento" Marcelo Camelo. André, o pai sabedoria da banda, colocando os mestres das guitarradas no bolso. O show estava bem gostoso, e como já é de lei nas apresentações dos meninos, Pedrinho gorfou delicadamente durante a tocada de uma das cantigas, trocando bruscamente o estilo hardcore/skatepunk da banda e passando a ser goregrind/splatter. Apresentação bem elegância dos cheirosos goianienses. Gostei muito de ver.

Mais conversas com bonitos e bonitas, mais andanças e num barracãozim que situava-se dentro do local da libertinagem, eu ouvia um funk carioca frenético e alguma moças e jóvens curtindo a parada paralelamente ao rock selvagem que rolava há alguns metros dali, aliás nos intervalos dos shows algum discotequeiro de marca maior, deixava a moçada frenética
com cantigas do estilo dance music que bombou no começo e meio da década de 90. Passado isso, subia aos palcos os mineiros do Deathraizer com o seu thrash/speed metal alucinante. A negadis parecia que tinha uma maquininha nos braços para tocar riffs e passagens tão rápidas. Vi pouco do show, é verdade, muito por conta de uma mangueira que possuía algumas mangas em seu pé e que localizava-se um pouco atrás de mim. Enfim, o pouco que vi dos raparigos me impressionou muito e até me deu vontade de usar calça apertada e ter cabelos longos.


Passado alguns bons minutos de conversa ao telefone, reparei que os paulistas do MACE subiam ao palco e minha espectativa para o show dos engenheiros era a melhor possível. E
eles não me decepcionaram, com um vocal com cara de menino morador de condomínio fechado que gosta de programação de computador e um guitarra meio mescla de índio paraense com cabelos sedosos típicos de forrozeiros da nova geração do nordeste, os joviais moeram a mente da galera, com uma boa mistura de técnica, rapidez e boa postura de palco. Sonzinho chegando finése em meu escutador de rádio AM e eu até ensaiei alguns movimentos braçais durante a apresentação dos cheirosos.

Perambulei mais um pouco, bebi água que nóia desconhece e sabe aquela coisa de você gostar de uma banda, passam os anos e tu nunca se decepciona com ela, aliás, só sente mais vontade de ouvir e curtir a bagaça toda? Pois é, com o Possuído Pelo Cão é assim, sai integrante, não tocam por um bom tempo e quando reaparecem, os cabras voltam à tona cada vez mais rápidos. E a apresentação dos lyndos foi
bem isso, uma ode ao circle pit, ao hardcore, aos dircursos emocionantes do Poney, vindo de uma excelente escola de Felipe CDC e demais bacharéis renomados. Com a adesão do goxtoso Júlio nas baquetas, a banda ficou mais fast, mais lynda e digo que o show dos joviais foi algo épico, com a negadis toda plantando bananeira, surfando em prancha, círculos encapetados no Círculo e uma emocionante lembrança ao eterno Rédson, aliás, isso se deu durante todo o evento.

E eis que chegava a hora daquela raparigágem toda ganhar um ar de nostalgia, emoção e paga pauzisse, pois os américas do Conquest For Death se alongavam e passavam o sonzinho para que dentro de alguns minutos o forró do gérso começasse. Antes disso, numa encenação bem de quinta categoria, revivendo os tempos de performance teatral de ensino fundamental de escola municipal, Joaquim Extremo foi assassinado misteriosamente com um pipoco que saiu dos graves das caixas de som do palco. E após isso, amigx, nunca tinha visto ao vivo uma banda com velhotes com tanta
energia. O baixista barbudo Robert era pura energia, por vez ou outra dando mosh com seu baixo na galera, o vocal Dev e seus altos pulos que colocava Raul Gil no bolso sem nenhuma cerimônia. Público voraz, quase dei a benção para o guitarra Alex, pensando ser algum tio meu descendente indígena, o batera Zak ultrarápido, Craig e sua camiseta do Brasil toda ensopada e mais uma vez o raparigo de porte avantajado tentava pular na galera, foram várias tentativas, todas em vão novamente. Fiquei impressionado com tudo o que vi da banda e um momento bem emocionante do show foi quando Zak passou as baquetas para Júlio bailar uma cantiga com o resto do pessoal da banda. Nervosismo, euforia, emoção, meladinha na cueca com cocô mole, e esse foi um momento marcante daquela noite. Posso dizer uma coisa, vai demorar pra mim ver algo tão lyndo, tão intenso e tão rápido como foi naquela noite de sábado, com algum dos caras que mudaram os rumos do hardcore mundial. Gratificante e emociante poder ver isso de perto e conviver por algumas horas com pessoas tão humildes e atenciosas, lição para muita bandinha nova e velha que deixam o ego e o "sucesso" subir por demais as cabecinhas fechadas.

E o legado que Joaquim deixa é de que as boas ações ainda vão existir e resistir, enquanto houver pessoas como os raparigos que organizam e fortalecem a cada ano o nome Caga-Sangue. Amizade, respeito, diversão, consciência, tudo isso se mistura em rodas de hardcore, em moshes, em quedas, coisas que aos olhos de conservadores e alienados soa como algo agressivo, só que para quem vive isso é apenas uma forma de se expressar, tirar o stress do dia-a-dia. Em um mundo cada vez mais individualista, que engole os mais fracos a cada instante, resistir sem depredar, ser coerente e verdadeiro sem se vender, faz você acreditar que esse mundão ainda é possível, aliás, o seu mundo, o seu bairro, as suas amizades. Além desse show de sábado que rolou, a programação seguiu com paletras durante toda a semana, abordando temas como o aborto, mobilidade urbana, racismo e ligação entre movimentos sociais e o punk, entre outros. Lembrando que a semana termina com apresentações na sexta em Facas Lindas, sábado em Goiânia e domingão de ramos em Brasólia. E a palavra final é: Em qualquer lugar que você esteja, seja qual for o seu grau de influência nessa sociedade, tente sempre mudar o amanhã, pois o pouco seu, será muito para o próximo. Mostre para todxs que o sistema te marca sim, mas jamais te arrebanha. Beyjos e até a próxima raparigágem!

Fotos por: Nicolas Gomes

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